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Domingo, 23 novembro de 2008   edições anteriores
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  Café absolvido

A bebida que já foi acusada de provocar enfarte, hipertensão, úlcera, câncer - e até de ser demoníaca! - agora é defendida como saudável na dose certa

Giuliana Reginatto

Depois da maçã, o café. O grão escuro que conferia vigor inesperado a seus consumidores foi recebido como fruto proibido no fim do século 16: seu efeito excitante tinha um quê de poção demoníaca para os cristãos da época. Aos olhos do Papa Clemente VIII, a popularidade do produto entre os islamitas já era um argumento encorpado o bastante para justificar uma sanção. Anos depois o próprio religioso percebeu que a tal ‘bebida de Satanás’ poderia lhe render vitórias sobre o cansaço e horas extras de oração. Promovido à líquido celestial, o café ainda mantém sua fama de antídoto contra o sono. “Teve uma época em que eu virava a noite trabalhando em projetos. Para ficar acordado o jeito era encher uma garrafa térmica de café e deixar na mesa”, conta o diretor de tecnologia Christiano Anderson, de 29 anos.

A propriedade estimulante do café motiva pesquisas científicas até hoje. Por meio delas descobriu-se a cafeína, substância responsável pela sensação de alerta. E o que era mera suposição religiosa se tornou evidência química. Pós-doutor em história da medicina e professor do Instituto de Neurologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Darcy Lima investiga os efeitos do café sobre o organismo desde os anos 80, quando a bebida passou a ser vista como ameaça à saúde. Pesavam sobre ela acusações piores que a antiga alegação de heresia: foi responsabilizada por pressão alta, osteoporose, enfarte, úlcera e câncer. “Estudos recentes mostraram que o café, na verdade, é muito benéfico para adultos saudáveis se consumido na dose certa”, diz.

Segundo Lima, o ideal é ingerir diariamente quatro xícaras de café grandes, das de chá, que contêm cerca de 150 ml. “Sabemos que o café possui mais que cafeína em sua composição. Também contém vitamina B3, ferro, zinco, potássio, antioxidantes (os ácidos clorogênicos) e substâncias que facilitam a entrada do açúcar para a célula, um efeito que se equipara ao mecanismo de ação da insulina para os diabéticos”, garante. Amparado pelos benefícios da bebida, o médico coordena o projeto Café na Merenda Escolar, desenvolvido em parceria com o Embrapa. “A idéia é substituir o refrigerante pelo café com leite nas escolas. O café pode estimular a concentração e fixação dos conhecimentos.”

Anderson não duvida do potencial do café sobre a dispersão humana diante de tarefas intelectuais. Para aguçar sua atenção no trabalho conta que consome entre 10 e 15 xícaras de café por dia . “Não me lembro qual foi a última vez em que passei um dia todo sem café. Se não tomo é como se não tivesse acordado, bate uma moleza. Esse hábito começou no trabalho, há dez anos. Naquele tempo tomar café tinha uma conotação social, no cafezinho você conversa com os colegas, discute projetos. Com o tempo passei a freqüentar o café até sozinho, parece que ele favorece a concentração”, garante.

A prostração relatada por Anderson na ausência de café, assim como dores de cabeça e irritabilidade acentuada, caracterizam um processo que já foi comparado pela medicina a crises de abstinência - semelhantes àquelas experimentadas por indivíduos viciados em álcool ou drogas. “Devemos lembrar que nem toda dependência é ruim. Quem tem o hábito de praticar exercícios também sentirá falta deles se interromper essa atividade, ficará com mau humor e dificuldade para dormir. O verdadeiro cuidado que devemos ter com o café é observar qual espécie foi usada para fabricar o pó: nos últimos anos vem sendo comercializado no País o café do tipo robusta, que tem o dobro de cafeína em relação ao tradicional (espécie arábica). No mercado há produtos que misturam as duas espécies, é bom checar essa informação para consumir a cafeína nas doses recomendadas”, indica Lima.

Na opinião do cardiologista Luiz Antonio Machado Cesar, diretor da Unidade de Coronariopatias Crônicas do Instituto do Coração (InCor), departamento do Hospital das Clínicas, mesmo que a falta do café se manifeste por meio de sinais orgânicos, é precipitado diagnosticar o consumo como vício. “É bem diferente de ser dependente da cocaína. Se a pessoa passar uma semana sem café as dores de cabeça desaparecerão, algo que não é tão fácil no caso da droga. Na humanidade sempre houve demanda por ‘combustíveis’ para o corpo funcionar: veio o chá, depois o café, os refrigerantes e agora os energéticos ”, diz.

Doutor em medicina, Cesar coordena no InCor um núcleo de pesquisas montado exclusivamente para estudar os efeitos do café no brasileiro: a Unidade Café e Coração, em atividade há seis meses. (mais sobre o projeto na entrevista ao lado). “Em termos de agropecuária o Brasil é expert em café, mas não há estudos abrangentes envolvendo consumidores da bebida em nosso País. Os dados que temos vêm de fora. Em todos eles o fator que se repete entre os tomadores de café é uma redução de 20% a 50% na chance de desenvolver diabete”, explica.

A importância do café no País se traduz por números expressivos. Um terço da produção mundial do produto vem do Brasil: é a maior safra entre as nações que cultivam o grão. Não é à toa que os estudos relacionados ao assunto se tornaram freqüentes. No Hospital do Coração (HCor) o foco é a relação entre o teor de gordura do café e os índices se colesterol. Esse é o tema da dissertação de mestrado defendida na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) pela gerente de nutrição do HCor, Rosana Perim. “Café tem duas substâncias gordurosas: cafestol e kahweol. Descobri que ao usar coador de pano ou filtro de papel na preparação da bebida essas gorduras são retidas e, portanto, só devemos nos preocupar com elas no caso do café não-coado, seja ele caseiro (café turco) ou comercial (o café expresso)”, alerta.

MERENDA E CAFÉ

+ Mito 1: consumir café é contra-indicado para crianças


Em Minas Gerais o uso de café na dieta dos alunos é estabelecido por lei. Trata-se de uma iniciativa motivada pelo Programa Café na Merenda, Saúde na Escola, criado pela Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC) para estimular a memória e a concentração. Para crianças entre 5 e 10 anos o ideal é consumir a bebida junto com leite. O mesmo vale para gestantes.


CORAÇÃO E CAFÉ

+ Mito 2: café provoca arritmia, taquicardia e palpitação


A sensibilidade à cafeína varia entre as pessoas, assim como a intolerância à lactose ou ao sal. Em adultos saudáveis doses adequadas não acarretam desconforto, mas o excesso pode levar à insônia, palpitação, tremor, azia, gastrite e até a um ataque de pânico. Segundo a ABIC, 91% da população acima de 15 anos consome café no Brasil.


CÉREBRO E CAFÉ

+ Mito 3: Por causar ansiedade, agrava distúrbios psiquiátricos


O café é considerado um alimento nutracêutico: com propriedades nutricionais e farmacêuticas.

Durante sua torra são formados sete compostos (quinídeos) que agem diretamente sobre o sistema nervoso. Assim, ele é indicado para quadros de mal de Alzheimer e Parkinson e depressão. A própria indústria farmacêutica tem usado a cafeína na composição de vários medicamentos.



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