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A vida adolescente como ela é
Novo filme de Laís Bodanzky retrata a realidade dos jovens com seriedade e realismo
Fernanda Brambilla, fernanda.brambilla@grupoestado.com.br
Antes de tomar as rédeas por trás das câmeras para dar início às gravações de seu filme sobre o universo adolescente, a diretora Laís Bodanzky (de O Bicho de Sete Cabeças, de 2001, e Chega de Saudade, de 2007) preferiu se certificar de que seus interlocutores a aprovariam. Ao lado do roteirista Luís Bolognesi, ela partiu numa peregrinação por sete diferentes escolas de São Paulo. Seu objetivo era, num só turno, simples e complexo: perguntar aos jovens o que deveria entrar no filme para, a partir daí, definir sua trama. As rodas de conversa, que começaram como um bate-papo informal, tomaram ares de terapia conjunta e, um turbilhão de emoções depois, o resultado pode ser visto a partir de amanhã nos cinemas, em As Melhores Coisas do Mundo. O filme é um retrato dramático, mas verossímil do cotidiano do jovem da classe média paulistana.
“O que for dito aqui não sai dessa sala”. Com essa frase de introdução aos debates, Laís e Bolognesi dissiparam olhares desconfiados dos jovens e obtiveram acesso irrestrito às angústias e projeções de suas vidas e, consequentemente, do personagem principal do longa. Nas conversas, eram abordados temas como família, princípios, a decisão da carreira, a descoberta da sexualidade, o medo do isolamento social e do bullying (atos de intimidação ou violência física ou verbal. Além disso, a diretora recebeu recomendações bem pontuais daqueles que devem ser os espectadores mais interessados no filme: os jovens.
“Havia um grande receio por parte da garotada de ser mostrada de forma caricata. Pediram que a gente tivesse distância de Malhação”, conta Laís, que selecionou, nas escolas e após vários testes com alunos, os dois protagonistas: Francisco Miquez, no papel de Mano, e Gabriela Rocha, que interpreta Carol. Bolognesi admite que a ideia de ir a campo para caçar um roteiro parecia arriscada: “Esses meninos tinham receio que a gente os mostrasse como um bando de drogados, uma geração perdida. É claro que rola droga e bebida na vida deles. Mas eles são mais saudáveis e pensantes do que se imagina. E isso vai transparecer no filme.”
Divórcio, depressão e paixões
Inspirado livremente na série de livros Mano, de Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto, As Melhores Coisas do Mundo engana quem se deixar levar pelo título, uma brincadeira com o modo como o próprio jovem busca extremos nas alegrias e agruras. “Para o adolescente, é sempre tudo ou nada, para o bem ou para o mal”, observa Laís Bodanzky. A vida do jovem Hermano, o Mano, papel do carismático estreante Francisco Miguez, 15 anos, enfrenta uma longa turbulência quando a rotina escolar é interrompida com o anúncio do divórcio dos pais (Denise Fraga e Zé Carlos Machado). Paralelamente, outros dramas começam ao seu redor: o irmão mais velho, Pedro (Fiuk), entra em depressão após levar um fora da namorada; e sua melhor amiga, Carol (a também estreante Gabriela Rocha, 16 anos) desperta a ira de pais e mestres ao se apaixonar pelo professor de Física (Caio Blat). Paulo Vilhena interpreta Marcelo, o professor de música de Mano, atuando como uma figura paterna auxiliar para o garoto.
Um dos grandes trunfos do filme é conseguir se esquivar bem dos clichês que envolvem as produções americanas voltadas ao público teen. Alguns desfechos até são previsíveis. Mesmo assim, boas surpresas amarram o roteiro de forma criativa e inteligente. A demagogia e as mensagens vazias típicas de filmes juvenis saem de cena e dão espaço a experiências menos politicamente corretas, mas (e por isso mesmo) também mais ricas. A primeira transa, por exemplo, é com a prostituta. Os beijos da festa não levam a namoro algum. Fotos indiscretas nas mãos erradas podem criar um escândalo que envolve toda a escola. Para essa turma, o legal mesmo é tomar um porre, sacanear homossexuais. Bem-vindos ao mundo real. Mas, como em todo filme adolescente, a esperança vem em dose maior do que se poderia esperar em outra produção qualquer. Afinal, na adolescência ainda é possível acreditar em final feliz.
QUEM É QUEM Conheça os principais personagens do filme
DENISE FRAGA Papel: Camila
Mãe de Pedro e Mano, é o ponto de encontro dos diferentes dramas do filme. A atriz tem atuação precisa, com mágoa e delicadeza na medida certa. Ela precisa se manter forte mas, por dentro, está arrasada com o fim do seu casamento
FRANCISCO MIGUEZ Papel: Mano
Os maneirismos naturais do ator, aluno do colégio Oswald de Andrade, dão força ao personagem e reforçam o frescor e a autenticidade do universo retratado. Além disso, Miguez é carismático e fica fácil gostar do personagem
GABRIELA ROCHA Papel: Carol
Estudante do colégio Dante Alighieri, a atriz foi aprovada nos testes para viver Carol, a melhor amiga de Mano. A naturalidadenos gestos, nas gírias e até nos diálogos garante forte empatia pela personagem
PAULO VILHENA Papel: Marcelo
De semblante sério, voz serena e barba, Vilhena interpreta o professor de música e mentor de Mano. Mas suas aparições são breves demais para lições mais eficientes e o personagem se perde ao longo do filme
FUIK Papel: Pedro
O filho de Fábio Jr. faz o papel do irmão mais velho de Mano: Pedro. Fiuk carrega na emoção, como o jovem sofredor que leva um fora da namorada e perde a motivação na vida. Mas nunca esquece de caprichar na cara de galã
CAIO BLAT Papel: Artur É o adorável professor de física Artur, queridinho dos alunos e que se envolve com Carol. Figura ambígua, transita entre o exemplo de autoridade confiável e o rótulo de sedutor irresponsável. O charme do ator ajuda
Fique atento AS MELHORES COISAS DO MUNDO DIREÇÃO: LAÍS BODANZKY O universo dos adolescentes de classe média de São Paulo é retratado pelo cotidiano de Mano, 15 anos, que recebe a notícia do divórcio dos pais.
INDICADO PARA Quem se interessa pelo universo dos adolescentes e se permite levar pela graça das pequenas coisas da vida
CONTRAINDICADO Para quem espera um filme cabeça, que aponte as mazelas da formação dos jovens. A proposta é dialogar com o adolescente
Preste atenção Na trilha sonora. Pela primeira vez, um filme brasileiro obtém os direitos de uma canção dos Beatles, ‘Something’
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