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Todo mundo vai poder ver o Big Bang
Grande Colisor de Hádrons simula a grande explosão que deu origem ao universo
Pela primeira vez, cientistas de todo o mundo recriam uma situação similar aos instantes posteriores ao Big Bang, na maior e mais cara experiência já feita. Para eles, inicia-se o que está sendo chamado de “nova era da física”.
O Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (Cern), que tem sede em Genebra e fica entre Suíça e França, promoveu colisões de partículas nucleares para tentar reproduzir as condições existentes na origem do universo.
Dois feixes de prótons circulando em direção oposta no túnel de 27 quilômetros do Grande Colisor de Hádrons (LHC), cada qual com energia de 3,5 tera elétrons-volts (TeV), colidiram e liberaram uma energia total de 7 TeV. As partículas são aceleradas a uma velocidade tão alta que cada próton dá 11 mil voltas por segundo no anel de 27 quilômetros. “Estamos abrindo as portas à nova física, a um novo período de descobertas na história”, disse Rolf Dieter Heuer, diretor-geral do Cern.
“A última revolução que tivemos na física ocorreu há cem anos, com a teoria da relatividade. Hoje, a porta foi aberta e espiamos o que existe do outro lado: o novo território é fascinante”, afirmou Jurgen Schukraft, responsável por um dos detectores do acelerador. O professor da Uerj e colaborador do Cern, Alberto Santoro, tem a mesma opinião.
Longa análise
Especialistas afirmam que os resultados do experimento realizado na máquina de US$ 10 bilhões, que levou 16 anos para ser construída, levarão meses, talvez anos para serem decifrados. Ontem, os cientistas conseguiram fazer com que partículas se chocassem a uma energia sem precedentes.
Chegaram a ser registrados 50 choques por segundo, sendo que, a cada dois segundos, se obteve um volume de dados suficiente para encher um DVD. Santoro disse que a grande preocupação nas próximas semanas será calibrar o equipamento para permitir que a coleta de dados possa ser exata.
Cada colisão entre as partículas cria uma explosão que permitiria analisar o que ocorreu um nanossegundo após o hipotético Big Bang, 13,7 bilhões de anos atrás.
David Foster, diretor de informática, revelou que 200 mil computadores espalhados em 200 localidades (inclusive no Brasil e em parte com software nacional) estão sendo utilizados: “É um esforço mundial e que vai mudar de forma fundamental a maneira como atuamos na informática”.
Quatro detectores gigantes – Alice, Atlas, CMS e LHCb – foram instalados no túnel para tentar mapear uma área do desconhecido.
Quebra-cabeça
O Cern visa a decifrar alguns dos quebra-cabeças mais intrincados da física: a origem da massa, como as forças no universo se mantêm coesas e a presença de matéria negra.
“Hoje, cientistas podem apenas explicar 5% do universo. Já a matéria negra ocuparia 25% do universo. Em dois anos teremos uma chance de conhecer essa nova dimensão”, disse o diretor-geral Heuer.
De acordo com a ciência moderna, o universo é tridimensional. O Cern não descarta uma quarta dimensão.
Caberá ao experimento Alice descobrir o que ocorreu no momento após o Big Bang. O objetivo não é o de entender o passado, mas sim descobrir como a expansão do universo ocorre e, dessa forma, desvendar o futuro.
A aceleração de partículas também poderá ser usada para atacar um câncer com um impacto mais reduzido do que o atual para o paciente.
O acelerador só atingirá sua potência total em 2013. Por enquanto, mostrou que funciona e é seguro. Na primeira tentativa de colocar o LHC em operação, em setembro de 2008, uma avaria comprometeu a operação.
No fim de 2009, o acelerador de partículas voltou a funcionar com metade da potência.
Jamil Chade
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