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Desenhista comandava igreja
Comunidade criada por Glauco há 20 anos segue preceitos do culto ao Santo Daime. Cartunista morava no mesmo terreno da sede, em Osasco
CRISTIANE BOMFIM e ELVIS PEREIRA
Na chácara onde o cartunista Glauco Villas Boas, de 53 anos, e o filho Raoni, de 25, foram assassinados, funcionava a igreja Céu da Santa Maria, que o cartunista fundou há 20 anos, segundo o primo dele Orlando Cardoso de Oliveira. Ali, praticava-se o culto ao Santo Daime, doutrina criada na região amazônica no início do século 20. Seus seguidores buscam o “autoconhecimento” a partir de rituais em que se toma o chá de ayahuasca, considerado alucinógeno.
Oliveira afirmou que Glauco conheceu a doutrina entre os anos de 1987 e 88 por meio de professores da Universidade de São Paulo (USP). 'Ele foi convidado por esse grupo, que esteve na floresta e trouxe o chá”. Em 1990, o cartunista e o primo fundaram a igreja, inicialmente alocada numa casa no Butantã, na zona oeste paulistana. Quatro anos depois, houve a mudança para Osasco.
Durante os rituais, Glauco costumava tocar sanfona e não chegava a manter contato com os participantes. Aos fins de semana, o local recebia de 200 a 300 pessoas. Em 2009, 11 mil pessoas estiveram ali. Seguidores afirmaram que era comum pessoas com depressão ou usuárias de drogas procurarem ajuda na igreja. Entre eles estava o estudante Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, de 24 anos, suspeito de cometer os homicídios. O jovem teria procurado o templo há três anos e chegou a levar o pai para conhecê-lo, conforme relato de frequentadores.
Em uma visita ao sítio no dia 30 de janeiro, a reportagem ouviu de frequentadores e adeptos do Santo Daime que a seita tem o “poder de limpar as pessoas”. “É uma religião criada no Acre na década de 1930 no meio da floresta. Ela nos deixa mais sensíveis, abre nossa alma e nos faz ver o que normalmente não percebemos”, disse uma das “integrantes fardadas” do Céu da Santa Maria antes do início do culto - os “fardados” são seguidores mais antigos, que auxiliam os novatos. Usam roupas diferenciadas, dependendo do ritual - branca para os trabalhos oficiais e azul para concentração ou outros trabalhos.
Nesse dia, umas 200 pessoas participavam do ritual, das quais 20 visitavam o sítio pela primeira vez - a cada semana, costumam ir de 20 a 30 frequentadores. Por causa do crescimento, havia planos de ampliar a sede.
“Não se assustem. Alguns de vocês podem passar mal, mas faz parte do processo de autoconhecimento. Lembrem-se, vocês não estão sozinhos”. Por fim, ela pede que ninguém deixe a comunidade antes do encerramento do ritual. Nesse dia, a celebração durou 7 horas. Durante os trabalhos, mulheres ficam de um lado e homens de outro. Todos usam roupas claras “para trazer boas energias”, explica a artista plástica Sandra Pio, 26 anos, frequentadora do Céu da Santa Maria há um ano.
Músicas religiosas que falam de natureza, amor e respeito ao próximo são cantadas incessantemente. A indicação é que cada pessoa tome pelo menos duas doses do Santo Daime. “É um lugar ótimo. Estou me conhecendo melhor. E o chá é só parte disso”, afirmou a artista plástica.
Seguidores contam que Mestre Irineu, um caboclo amazonense simples, recebeu os ensinos de Nossa Senhora da Conceição, enquanto tomava pela primeira vez o chá de ayahuasca. Seguidor de Irineu, o seringueiro Sebastião Mota de Melo difundiu a doutrina a partir da cidade de Rio Branco (AC).
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