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E lá se vão Geraldão, Dona Marta, Netão...
GILBERTO AMENDOLA, gilberto.amendola@grupoestado.com.br
A morte do cartunista Glauco Villas Boas, criador do Geraldão, faz pensar em quanto o Cazuza foi um cara de sorte. O cantor e compositor não teve o desprazer de ver seus heróis envelhecendo, constituindo família, engordando, entrando para partidos políticos ou participando de reality shows. Os heróis do Cazuza, como todos sabem, morreram de overdose.
Porque, por justiça, poética que fosse, era assim que um herói que vivia à base de pico, remédios, cigarros e psicotrópicos em geral deveria partir.
Que ao menos ele morresse de pneumonia, oras! (Sim, porque além de uma farmácia ambulante ele também tinha o divertido hábito de andar pelado por aí).
Mas Geraldão não morreu de overdose. Nem de pneumonia. O personagem foi acometido por uma abstinência sem volta, a falta de “Glaucose” no sangue.
Fosse um invencível Super-Homem ou qualquer Tio Patinhas, o adeus do criador não representaria o fim da criatura. Mas Geraldão nunca teve peito de aço nem nadou em piscina de dinheiro. Geraldão tinha alma - portanto, sempre esteve sujeito a participar da festa em que só os vivos têm a pulseirinha VIP, a morte. Sem o Glaucão, sem Geraldão. Simples assim.
Geraldão vai seguir o mesmo destino dos clássicos da HQ. Quando Charles Schulz (1922 -2000) enfartou, Charlie Brown e Snoopy nunca mais deram as caras em material inédito. Em 1999, ano em que Bill Watterson decidiu dar uma banana para o resto do mundo e tornar-se um artista recluso, Calvin & Haroldo saíram de cena. Com o chapado do Geraldão não vai ser diferente. Os tiros que mataram o artista atingiram sua arte no coração.
Não à toa, ontem de manhã, muita gente anunciou que um tal de Geraldão tinha morrido. “Que Geraldão? Aquele doidão! Qual? O das tirinhas.” Até que o personagem desse lugar ao seu criador, o cérebro de muitos trintões fez ‘creck’ e deu uma volta completa em torno das coleções da Chiclete com Banana e outras revistas da editora Circo (anos 80/90).
Alguém já se perguntou por que, apesar das drogas, do álcool, dos cigarrinhos de artista e até do nu (nada artístico), era impossível não sentir uma espécie de carinho materno pelo Geraldão? Qual era o segredo de causar calafrios nos “canas da PF”, em agentes de saúde e religiosos de diversas denominações, sem nunca ter sido caso de polícia, interno de clínica de recuperação ou cobaia de exorcismo? Felizmente, nem a turma que ainda sonha em ver o Cascão tomando banho, que tinha ojeriza aos porres do Mussum e que lutou pela proibição do inesquecível cigarrinho de chocolate conseguiu vestir o Geraldão...
Pô, com o perdão da má palavra, o Geraldão nunca foi enquadrado porque era um “querido”. Através dele, realizávamos nossa fantasia de “chapar o coco”, de “chutar o balde” e andar pelado (bom, pelo menos eu tenho essa fantasia). Geraldão também foi o amigo doidão e todo errado que todo mundo já teve ou deveria ter na vida. É claro que teorias mais complicadas e cabeçudas devem surgir nos próximos meses... mas e daí?
Com sua morte, Glauco também levou o Geraldinho, o Netão, o Doy Jorge, o Zé do Apocalipse, o Casal Neuras... e a Dona Marta! Ô, Dona Marta, quem trabalha em um ambiente corporativo sabe a falta que a senhora faz...
Claro que as tirinhas estão aí para nos proporcionar deliciosos flashbacks (ops), viagens no tempo e outros prazeres - quem sabe até los dois amigos mais íntimos, Angeli e Laerte, não decidem criar um “avatar” para, vez ou outra, aplacar a saudade de Glauco/ Geraldão. Diferente do que garante o senso comum, viver do passado não é tão ruim assim. ‘Bora’ tirar a roupa, gente!
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