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Sexta-feira, 12 março de 2010   edições anteriores
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  'O importante é a sintonia'

Para Leonardo di Caprio, é este o segredo do bem-sucedido trabalho com Scorsese. Ele também gostou do roteiro e da fragilidade do personagem

Luiz Carlos Merten

Leonardo DiCaprio entra na sala em que o espera o reduzido grupo de jornalistas. Ele é mais alto do que parece na tela. Chega sorridente. DiCaprio está em Berlim mostrando o novo filme de Scorsese. Se depender do público, ambos vão continuar filmando para sempre - o bloco de quatro filmes de Scorsese com DiCaprio formam o maior sucesso de bilheteria do cineasta. Como mexer em time que está ganhando?

O que foi determinante para que você fizesse ‘Ilha do Medo’, Scorsese ou o roteiro?

Marty, claro. Neste negócio, seria louco se não me agarrasse a toda oportunidade de trabalhar com um diretor como ele. Mas o roteiro de Ilha do Medo era particularmente intrigante. Todo o filme se estrutura sobre esse homem que investiga o desaparecimento de uma mulher num instituto psiquiátrico. Ele carrega o peso de seu passado e lá pelas tantas a investigação muda o eixo. É ele que está sendo investigado, ou que se investiga. É um personagem que se fragiliza e isso é irresistível para um ator. O que me atrai é a possibilidade de sondar a dor humana e de me expressar em diferentes níveis, inusitados para o público e para mim.

Como você se preparou?

Marty deixou claro que o filme precisava de um clima, de um tom para funcionar. Ele nos mostrou alguns filmes referenciais - filmes noir, como Laura, de terror, como A Ilha dos Mortos Vivos. Pessoalmente, assisti a documentários sobre as prisões psiquiátricas, que recorriam, nos anos 40 e 50, à lobotomia e trabalhavam com drogas pesadas. Isso só acabou nos 60. Tínhamos um consultor no set, que nos explicava as diferentes patologias e psicoses de que tratava o roteiro. Marty se cercou, e nos cercou, de informação, mas confesso que o livro foi fundamental para mim.

Como você define a parceria com Scorsese? Há uma diferença de idade grande entre vocês...

Você quer dizer pai e filho, mestre e aprendiz... Embora sejamos de gerações diferentes, Marty e eu compartilhamos os mesmos interesses. Ele sabe muito mais do que eu, sobre a natureza humana e o cinema. Aprendo tanto que adoraria vê-lo participar de um quiz show. (...) Mas o importante é a sintonia. Queremos sempre fazer o melhor filme para tocar as pessoas. Acho que a indiferença seria nosso castigo.

Já tinha visto ‘Ilha do Medo’?

Vi ontem, aqui em Berlim. Sabia que era forte, mas é mais forte ainda. O risco é as pessoas irem ver o filme esperando só um thriller psicológico para tomar sustos a cada dez minutos. A prática já me ensinou a reduzir minhas expectativas. O público nem sempre percebe o que queremos, embora também seja verdade que, às vezes, ele toma a dianteira e descobre coisas nas quais não pensamos. Ilha do Medo é um filme com camadas. Parte de um ponto para chegar a outro.



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