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Uma casa muito engraçada
Dezessete pessoas que moram juntas? Até parece o 'BBB', mas é a Casadalapa
Gilberto Amendola
O choque entre personalidades marcantes dentro de uma casa nem sempre resulta em um arremedo de Big Brother ou em outro reality show qualquer. Dezessete pessoas (às vezes um pouco mais, às vezes um pouco menos) podem se reunir sem a sombra do primeiro milhão ou a expectativa de uma ponta na próxima novela das oito. Um grupo deste tamanho também pode se encontrar para pensar e produzir arte.
Ao menos é o que acontece há cinco anos na Casadalapa, coletivo de artistas de cinema, teatro, música, artes plásticas e afins, sediado no agitado bairro da zona oeste. “Sabe que já surgiu um convite pra gente participar de um lance assim, um reality show? Era um que prometia reformar a casa das pessoas. Mas não rolou”, diz o DJ e editor de som Pedro Noizyman. “Eu não aceitaria participar. Acho que não tem nada a ver com a proposta da casa”, completa o diretor de arte Sato.
Noizyman foi o primeiro a morar nesse espaçoso sobrado da Lapa. “Vivia com minha ex-mulher. Sempre tínhamos hóspedes, mas a casa não existia com esse propósito de residência artística.” Com o fim do casamento, Noizyman mudou-se do sobrado - apesar dos protestos de amigos.
Paralelamente, Sato, que atuava como diretor de arte em uma agência de publicidade, começou a vislumbrar a hipótese de deixar seu trabalho. “Sabe qual o problema? Em agência de publicidade, e em outras empresas, tem muita gente medíocre mandando em você. Ferrando com o seu trabalho e com seu talento”, ataca.
Com uma proposta de autogestão (e a abolição de chefes), Sato, Noizyman, a figurinista Silvana Marcondes e outros artistas começaram a pensar em um coletivo de criação. “A ideia estava clara, mas nós precisávamos de uma sede”, fala Silvana. “E todo mundo só lembrava da minha ex-casa, a casa da Lapa”, completa Noizyman.
Hoje, em uma visita ao sobrado, é possível flagrar Willem Dias editando um longa metragem; Thiago Dottori e André Collazzi lapidando um roteiro; Achiles Luciano pintando um quadro; Will Robson produzindo um disco ou Sebastião, de 2 anos, filho de Silvana, correndo pra cima e pra baixo atrás de Wander, o cachorro mascote do grupo.
O clima é familiar (OK, de uma família bem moderna). Por todos os cantos da casa é possível encontrar criações dos artistas residentes. Nem o banheiro escapou de se transformar em uma moderna instalação. Vez ou outra, concorridas festas são realizadas no lugar - com exibição de filmes, peças de teatro e shows de rock. O único vislumbre de organização mais rígida é quanto ao pagamento de contas (água, luz, aluguel).
Os artista têm o seu espaço definido dentro da casa, mas o lugar mais relevante (onde surgem as melhores ideias) é mesmo na cozinha, assim como nos confinamentos da TV. “Nosso encontro é na hora do cafezinho...”, diz Willem Dias. Foi durante esse café que projetos coletivos nasceram - assim como a troca de informações sobre futuros trabalhos. “Nós nos ajudamos. Se sei que estão precisando de um roteirista, eu indico alguém daqui; se eu sei que precisam de um editor, também posso indicar alguém da casa”, fala Sato.
Os membros da casa só não admitem a formação de “panelas”. “Ao contrário, nós somos um grupo aberto. Nós buscamos influências além dos limites da casa. Meu papel aqui, por exemplo, é trazer o que acontece na rua para o nosso universo. Não ficamos alheios ao mundo”, comenta o grafiteiro e artista plástico Julio Dojcsar.
Como aproveitamento dos diversos talentos da casa, o projeto mais conhecido do grupo é o Enquadro - uma história em quadrinho urbana que já foi grafitada em muros da cidade, virou curta-metragem, música e um livro, lançado no final do ano passado. Para conhecer o trabalho deles, acesse casadalapa.blogspot.com.
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