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Com samba e marketing no pé
Marcelo Duarte
Atrás de patrocínios para o Carnaval, as escolas de samba de São Paulo montam estruturas comerciais, que incluem reuniões de negócio com roupa social e até apresentações em power-point
O Carnaval em São Paulo gera cerca de 25 mil empregos diretos e indiretos e atrai 30 mil turistas para o sambódromo. Ano passado, movimentou 45 milhões de reais e recebeu 19,9 milhões de reais em investimentos destinados à infra-estrutura da festa e às escolas de samba. Carnaval virou coisa séria e as escolas de samba viraram verdadeiras empresas. Como toda empresa, precisa vender seu produto todos os anos, procurando patrocinadores e parcerias. Por trás de um samba-enredo, pode estar um grande negócio. Tudo para exibir o produto final no desfile, que começou ontem e termina hoje à noite, no sambódromo do Anhembi.
Mocidade Alegre
No horário comercial, Janaína Lima trabalha em uma empresa de marketing e eventos. Só depois do expediente é que ela veste a camisa da Mocidade Alegre.
Janaina é uma das quatro responsáveis pelo departamento de marketing da escola de samba, criado em julho passado. “O grande desafio de trabalhar com marketing é não tornar o Carnaval uma coisa totalmente comercial”, diz. Por ser terceirizado, o departamento recebe uma “pequena porcentagem” de todos os patrocínios que consegue trazer para a escola.
De acordo com Janaína, o marketing só entra em ação depois da escolha do tema do samba-enredo. É aí que ela, com uma apresentação em power-point, começa a procurar as empresas 'parceiras'. Este ano, o samba enredo é 'Da Criação do Universo ao Sonho Eterno do Criador... Eu Sou Espelho e Me Espelho em Quem Me Criou!', que fala de espelhos e, ao mesmo tempo, presta uma homenagem ao principal fundador da escola, Juarez Cruz. Não por acaso, a Cebrace, a maior produtora de vidro float da América do Sul, é também a grande patrocinadora da escola em 2010. “Começamos a buscar aquelas empresas que tem mais a ver com o samba'.
Além da Cebrace, empresas como a Visa e o Banco do Brasil também aparecem como parceiros da escola, que foi campeã do Carnaval de São Paulo em 2009. Todos os negócios foram fechados pela equipe de Janaína.
Leandro de Itaquera
Emerson Nunes, 31 anos, coordena uma equipe de 15 pessoas - formada por jornalistas como ele, publicitários e administradores - , que cuida de toda a comunicação social da escola de samba Leandro de Itaquera, a única representante da Zona Leste no Anhembi. “Meu trabalho é buscar pessoas interessadas em integrar a Leandro”, afirma. “Isso vale desde o folião até parceiros mais fortes, que vão investir na escola”. Este ano, apesar dos esforços de Emerson, a Leandro não conseguiu nenhum patrocinador. Nenhuma empresa privada entrou com dinheiro na escola.
O 1,3 milhão de reais investidos pela escola no Carnaval foram conseguidos, exclusivamente, com a venda de fantasias e da ajuda da comunidade. O Shopping Metrô Itaquera cedeu um espaço para a exposição das fantasias, que eram compradas pelo site da escola de samba. “Não dá para ficar só em cima do poder público, que já está no limite de ajuda ao Carnaval”, diz ele.
Vai-Vai
O empresário Renato Maluf trabalha há 20 anos na Vai-Vai. Oficialmente, é o tesoureiro da escola. Mas é Renato quem vive batendo na porta de patrocinadores. Nas reuniões com possíveis parceiros, o uniforme de Renato combina pouco com samba: camisa e calça social. Grande parte do dinheiro, porém, ainda é levantado com a venda de fantasias e com shows. O fato de propagandas e ações de merchandising serem proibidas durante os desfiles dificulta na hora de convencer os interessados. Para driblar essa situação, este ano a Vai-Vai estampou as marcas de seus patrocinadores em 50 mil bandeiras, que serão distribuídas no desfile. Em 2010, Renato conseguiu para a Vai-Vai os patrocínios da cerveja Itaipava e da empresa aérea Turkish Airlines. O enredo, que festeja os 80 anos da Vai-Vai e da Copa do Mundo, atraiu a empresa da Turquia. O presidente da Turkish, que visitou a escola, só falava inglês e turco. Sorte que o acordo rolou mesmo com a diretora da empresa no Brasil, que falava português.
Rosas de Ouro
A Rosas de Ouro não tem ainda um departamento dedicado exclusivamente à captação de patrocínios. A assessora de imprensa Aurora Teles, o diretor de comunicação Fernando Innecchi e até mesmo a presidente da escola, Angelina Basílio, se revezam na hora de buscar “parceiros” para o carnaval. “Quem tem parceiro não fica na estrada”, afirma Angelina.
Este ano a escola foi alvo de polêmicas por causa do tema do enredo, cujo título original era “O Cacau é Show”. No entendimento da Rede Globo, que detém o direito exclusivo de transmissão do Carnaval 2010, o refrão fazia referência explícita à Cacau Show, que teria investido R$ 2 milhões em patrocínio para a escola. Para evitar conflitos, o título do samba mudou para “Cacau: um grão precioso que virou chocolate, sem dúvida se transformou no melhor presente!” e o refrão mudou de “o cacau é show” para “o cacau chegou”. “A escola não vai falar da marca, nós vamos falar da trajetória do cacau no mundo”, despista Angelina.
Ela conta que teve a ideia do enredo depois de entrar numa loja e comprar o livro “O Cacau é Show”, escrito por Alexandre Costa, presidente da empresa de chocolates. “Gostei muito da pesquisa do livro.” De acordo com ela, tanto a Cacau Show quanto a Rosas de Ouro são da mesma região da Casa Verde e começaram pequenas. “Hoje a Cacau tem 780 lojas pelo País e nós temos uma das maiores quadras do Brasil.”
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