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'Não dá para separar a sorte do azar. Acho que tive os dois'
GILBERTO AMENDOLA, gilberto.amendola@grupoestado.com.br
José Hamilton Ribeiro
Vencedor de sete prêmios Esso de jornalismo, o repórter que perdeu parte de uma perna ao cobrir a Guerra do Vietnã em 1968 é um homem que joga em vários campos
O repórter José Hamilton Ribeiro prefere dizer que tem 50 anos de profissão do que revelar a idade. Faz muito bem. Ao conversar com a reportagem do JT, na última terça-feira, na sede da Globo em São Paulo, mostrou que o tempo não importa, mas, sim, o que fazemos com ele. Nesta conversa, Hamilton fala dos 30 anos do Globo Rural, da alma do homem do campo, explica a diferença entre burro e mula e relembra seu trágico acidente durante a cobertura da Guerra do Vietnã, em 1968, quando perdeu uma perna. Hamilton, para manter o hábito, faz a primeira pergunta:
Você estudou latim? Não. O que tem de mais interessante sobre o Globo Rural é que muitas das instruções editoriais do programa são escritas em latim. Isso porque os diretores eram frades dominicanos.
Para ser estagiário no ‘Globo Rural’ tem de saber latim ? Essa geração nova, infelizmente, nem sabe o que é latim...
Qual o segredo da longevidade do programa? Seria o latim? (Risos) Foi feita uma pesquisa com pessoas que ganham dinheiro de repente, tipo loteria. O que essa pessoa faz? A pesquisa mostrou que a maioria compra uma fazenda. Por quê? Porque mesmo morando na cidade, sendo urbanoides, temos uma nostalgia do campo e da natureza.
Uma nostalgia que está no DNA de quem nunca viveu no campo. É o inconsciente coletivo indo lá para o Jardim do Éden. E tem um pouco daquele sujeito que diz: “vou ralar aqui na cidade, mas ainda compro um sítio, vou criar cavalo e descansar. Nunca mais quero enfrentar trânsito”. É esse tipo de sonho que faz o Globo Rural ter uma grande audiência na cidade. Outro detalhe, o programa não é agro-técnico, ele está interessado na alma do homem do campo. Agora, quem dirá que a alma do homem do campo é menor que a alma do homem da cidade? Eu acho que é até maior.
Que alma é essa? O homem do campo está ligado à natureza. Ele presta atenção no sol, na lua e nas estrelas. Ele sabe por exemplo, se é hora de plantar ou se é hora de colher; se é hora de esperar ou se é hora de correr. É uma alma mais atenta.
E como seria a alma da cidade? O homem padrão de São Paulo levanta às 4h da manhã; pega duas ou três conduções para chegar ao serviço, às 8h. Sai, às 18h, mas vai chegar em casa só às 20h ou 21h; mal dá pra jantar; vê um pouquinho de novela e dorme.
E essa alma do campo? Além de atenta, ela também produz arte de qualidade? (Hamilton tem um livro sobre moda de viola) O ponto mais forte da cultura do campo é a viola. Hoje, a viola caipira já chegou nas universidades. Ela ganhou o status de um instrumento sinfônico. Mas esse respeito só existe porque o homem do campo manteve a viola viva. Quando a dupla Tião Carreiro e Pardinho descobriu que com a viola também era possível fazer solo, a história do instrumento mudou. Agora, a turma nova mantém essa tradição, gente como Almir Sater, Ivan Vilela, Roberto Correa e uma dezena de jovens.
O que o senhor acha da chamada música sertaneja moderna? A música caipira paulista surgiu na década de 20 e foi até meados dos anos 60. Essa música era uma coisa autêntica. Era um bando de poetas, alguns analfabetos e muitos sem educação formal. Ainda assim, eram poetas. Poetas que retratavam um Brasil agrário.
Mas o que aconteceu com essa música? Virou uma coisa meio trilha sonora de motel... Hoje não tem mais carro de boi, porque não tem mais carreiro; não tem mais peixe, porque o rio está poluído; não tem mais caça, porque acabaram com as matas... A música perdeu o seu cenário e sua motivação. Os compositores e poetas, hoje, moram na cidade. Essas duplas caipiras modernas não têm mais um substrato cultural. Eles fazem uma música que não é nem rural nem urbana. É música suburbana, desajustada... Muitos têm talento, mas estão perdidos na cidade.
É diferente entrevistar um homem do campo ou um homem da cidade? No geral é fácil lidar com pessoas simples. O nosso material é o homem. O espetáculo do homem é o homem, a figura humana. Como é mais fácil de se aproximar do homem do campo, você acaba descobrindo coisas interessantes...
Qual foi a última coisa interessante que você descobriu? Estou fazendo uma reportagem sobre mula. Aí, no meio da matéria, surgiu a seguinte questão: o que é melhor: a mula ou o burro? Perguntei para o peão e ele me disse: “depende do uso”. Se você for usar na carroça é melhor o burro do que a mula. Porque a carroça tem uma peça chamada “retranca”, que passa embaixo do rabo do animal. Um dos problemas dos carroceiros é que o burro e a mula defecam e suja a retranca. Por isso, o homem do campo diz que o sujeito que deu uma mancada “cagou na retranca” (risos). Já ouviu essa expressão, não é?
Ô... (risos) Só que no caso da mula, esse problema é duplo, porque além das fezes tem a urina. Como a retranca é de couro, estraga mais depressa. Logo, na carroça, o burro é mais valorizado. Já para andar, a mula tem mais valor. Aí, é claro, eu perguntei para o peão o motivo desta preferência. Ele me respondeu: “ Porque o burro marcha e a mula marcha, mas esta ainda tem a racha” (risos).
Difícil tirar uma história espontânea como essa de uma celebridade, não é? Sim. Vamos chegar no extremo do político, por exemplo. Um político como o Lula fala exatamente o que ele não faz. Eles usam a palavra para esconder o que estão fazendo.
Falta paixão no jornalismo atual? O que falta é delicadeza. Compaixão, no sentido de ter respeito com as fraquezas do ser humano, e não tripudiar sobre elas. Toda vez que um jornalista trata uma coisa com delicadeza, ele já deu um presente para o leitor.
Para ser repórter é preciso ser humanista, gostar de gente? Se não gostar de gente, não dá para esse ramo, não. O ser humano é um animal que não deu certo, mas que merece respeito.
Existe comparação entre o tipo de cobertura que fazemos hoje, em guerras como a do Afeganistão e do Iraque, com aquela que o senhor participou, a Guerra do Vietnã? A guerra do Vietnã foi a guerra melhor coberta em toda a história. Praticamente não havia censura. No Vietnã, quem cuidava do credenciamento de jornalistas eram 20 ou 30 burocratas que eram facilmente sensibilizados com um pacotinho de notas de dólar. Então, o que se via no Vietnã eram centenas de jornalistas independentes que se metiam na guerra na esperança de conseguir uma grande história e vender depois. Muitos pagaram com a vida. Agora, os americanos aprenderam que a cobertura da imprensa é uma arma. Hoje, tanto no Iraque como no Afeganistão, você tem que se enquadrar no regulamento deles.
Falar do Vietnã e, especificamente do seu acidente (Hamilton perdeu parte da perna esquerda ao pisar em uma mina terrestre), é algo que o aborrece? No Vietnã eu passei três medos. O medo de morrer - porque nos primeiros três dias pós-acidente eu achei que ia morrer; depois tive medo de me tornar incapaz fisicamente e não poder ganhar a vida com o meu trabalho. Por isso, assim que consegui me mexer em uma cadeira de rodas, ainda no hospital do Vietnã, comecei a fazer entrevistas. O terceiro medo é que eu fosse carimbado como o repórter que foi uma vez numa guerra e nunca mais fez mais nada. Então, quando voltei do Vietnã, eu realmente ficava constrangido em falar disso. Eu fiquei como um louco escrevendo reportagens e participando de concursos, como o Prêmio Esso (ganhou sete), para mostrar que eu não era só o cara da guerra e do acidente.
Existe alguma história ainda não contada deste período? Eu fiquei 11 dias em um hospital de guerra. Foram os 11 dias mais pavorosos da minha vida. Era um ciclo de dor, morfina e enjoo. Eu não conseguia comer nada, só vomitava. No entanto, eu percebi, lá pelo terceiro dia, que eu estava em permanente ereção. Pensei que o diabo daquela bomba também tinha me enlouquecido. Chamei o diretor do hospital e contei o que estava acontecendo. Ele riu e disse: “Metade da enfermaria está com esse problema”. Como eu tinha perdido parte do corpo de maneira traumática, o cérebro ainda não havia redirecionado o fluxo de sangue. Ele ainda estava mandando para o meu lado esquerdo o mesmo tanto de sangue que mandava para a perna direita. Por isso, o sangue acabava indo parar lá e ocorria o fenômeno da ereção. Ao saber disso, pedi o cartão do médico e disse que voltaria a procurá-lo em 40 anos. Para, é claro, ele cortar minha outra perna (risos).
Pensando no que aconteceu com o senhor no Vietnã, acha que teve mais sorte ou azar? Sorte por não ter morrido ou azar por perder uma perna? Tem uma historinha chinesa que diz que qualquer acontecimento da nossa vida pode ser visto pelo lado da sorte ou do azar. Eu acho que tive os dois. Não dá pra separar a sorte do azar.
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