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De boleiros a cartolas
É cada vez maior o número de clubes administrados por ex-jogadores
ALEX SABINO, alex.sabino@grupoestado.com.br
... Quando era jogador, Maurício Villela se preocupava em comer, dormir, treinar e jogar. Aos 46 anos, sua responsabilidade é cuidar para que 50 outros atletas façam o mesmo. Mauricinho, ex-ponta do Vasco e da Seleção Brasileira, faz parte de uma tendência recente do futebol brasileiro: ex-atletas administradores de clubes. “Para nós, que estivemos dentro de campo, é mais fácil fazer isso. Entendemos perfeitamente o que o jogador precisa”, explica o presidente do Votoraty e diretor do Olé Brasil.
A tribo dos atletas-patrões pode ser encontrada também em grandes clubes da Capital e interior. Em times voltados essencialmente para a conquista de títulos e para revelar talentos.
Aos poucos, eles estão tomando conta do universo da bola. “Nossa diferença para os demais não é apenas o conhecimento do futebol. Muitas vezes nós nos preparamos para isso, como é o meu caso. Sou formado em marketing esportivo e gestão de clubes”, explica César Sampaio, ex-volante de Santos, Palmeiras e Seleção. “Sou um profissional da área.”
Nem todos podem se gabar da formação. Alguns entram na velha barca do “estou aqui para ajudar”, argumento tantas vezes usada pelos cartolas tradicionais para dirigir equipes. São os abnegados. “O América está pequeno, mas é grande. Faz parte da minha vida e eu quero auxiliar”, disse Romário ao assumir cargo de direção do clube que seu pai, Edevair, era torcedor. A função do ex-atacante é conseguir dinheiro. Nas horas vagas, também atua com a camisa vermelha, mesmo aos 43 anos.
O mais comum ainda é o boleiro, após pendurar a chuteira, pegar o caminho de técnico. Mas até bem pouco tempo atrás, essa era a única forma de se manter no esporte. Fosse no profissional ou na base. “Jamais vou ser técnico. Não tenho a menor intenção disso. Até tive convite para ser auxiliar do Vágner Mancini (Vasco). Mas não é o meu caminho”, garante Mauricinho.
Com formação específica ou não, administrar um clube é tarefa que traz desafios inimagináveis para quem antes só se preocupava com a partida da quarta e do domingo seguinte. “Jogador de futebol é bibelô. Você vive preparado para desempenhar apenas aquela função e em alto nível. Quando para, muitas vezes não sabe o que fazer da vida. Mesmo numa equipe pequena, o dirigente tem de pensar em tudo. No dinheiro, em descobrir novos garotos, em transporte, alimentação... É um mundo completamente novo”, entusiasma-se Manoel Maria, ex-atacante do Santos dos anos 60. Ele administra o Litoral, equipe idealizada pelo Rei Pelé e que mantém parcerias com o Jabaquara e o Paulista de Jundiaí.
Resultado a longo prazo
Um mundo novo foi o que Roberto Dinamite encontrou em São Januário. Mas a paisagem não era bela. Ao se sentar na cadeira de presidente do Vasco, em 2008, encontrou o clube em situação financeira precária e um time que meses depois seria rebaixado para a Série B do Brasileirão. Só de acordos trabalhistas, eram R$ 200 mil mensais a serem pagos. Isso em uma agremiação que já havia recebido todas as cotas de televisão para a temporada. “Minha mulher disse várias vezes que eu era louco. Mas a vontade de mudar a administração do Vasco foi maior”, disse o presidente Roberto é maior artilheiro da história do time, com 708 gols.
Ex-jogadores em cargos de direção trazem também expectativas maiores aos torcedores. Não raramente, eles esperam choque de gestão - em clubes mergulhados na crise - e com isso sucesso quase que imediato tanto dentro quanto fora de campo, na parte dos negócios.
“Mas isso é difícil porque um trabalho sério é coisa de longo prazo. O resultado dificilmente vem em pouco tempo. Para os atletas que hoje trabalham em grandes equipes, isso é um complicador”, conclui César Sampaio, ao lado do ex-zagueiro Cléber, sócio da C2B Sports, que administra o futebol do Rio Claro.
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