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Segunda-feira, 8 fevereiro de 2010   edições anteriores
ECONOMIA
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  Oriente versus Ocidente na LG

Greve em Taubaté mostra os problemas dos funcionários em conviver com o jeito coreano

PAULA PACHECO, paula.pacheco@grupoestado.com.br

Por quase uma semana, os funcionários da coreana LG Eletronics de Taubaté - em torno de 2,4 mil - interromperam a produção de cerca de 300 mil unidades com o objetivo de brigar pelo cumprimento de um acordo de promoções e para protestar contra suposto assédio moral por parte de alguns executivos.

A greve terminou na sexta-feira passada depois de um acordo entre Sindicato dos Metalúrgicos de Taubaté e empresa, intermediado pelo Tribunal Regional do Trabalho de Campinas (SP).

O fim do assédio moral é um tipo de reivindicação comum nas pautas sindicais, mas o excesso de queixas, segundo o sindicato, mobilizou os funcionários. A empresa, segundo a entidade, se comprometeu a mudar suas práticas. Os trabalhadores falam de insultos, palavrões e maus tratos.

A funcionária Simone de Gouvêa Rosa, de 35 anos, recorreu ao Judiciário em junho de 2007, queixando-se de um tapa nas costas e insultos. Ela pede indenização por “agressão moral e física”. O acusado é um diretor da área de telefonia celular conhecido como ‘mister’ Ahn. Se for condenada, a empresa terá de pagar um valor a ser determinado pela Justiça.

Após um acordo, ficou acertado que Simone continua vinculada à empresa até a decisão - recebe o salário e demais benefícios, mas fica em casa; não pode procurar emprego ou ter atividade paralela remunerada. Depois de tanto tempo, Simone ainda tem de conviver com as perguntas inconvenientes de quem quer saber por que teria levado um tapa do diretor coreano. Até o filho único, de 13 anos, é atormentado pela curiosidade dos colegas de escola.

Simone entrou na LG em 2001. Acordava às 5h, ainda com o céu escuro, preparava o filho para a escola e chegava à fábrica às 7h15. O expediente terminava às 17h18. Parava dez minutos para o lanche da manhã, tinha pausa para o almoço e outro lanche à tarde. Mas, segundo ela, precisava pedir para ir ao banheiro ou tomar água. “Se ninguém estivesse livre para me substituir, tinha de segurar a vontade”, diz. Seu trabalho era testar baterias e colar adesivos nos aparelhos. Em junho de 2007, quando a produção de monitores estava mais tranquila, e a de celulares, acelerada, alguns funcionários, entre eles Simone, foram recrutados para mudar de departamento por uma semana.

O grupo aguardou em uma sala para receber mais instruções para as horas extras que faria. Ela conversava com Adriano Calais, então integrante da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa). Mister Ahn, segundo ela, entrou na sala, lhe deu um tapa estalado nas costas e gritou em coreano.

Abalada, a funcionária passou por um psiquiatra e uma psicóloga e teve de tratar da depressão com muitos remédios. “Tomava calmantes, não conseguia dormir. Não conseguia sair de casa, nem tirava o pijama. Ficava no quarto o dia inteiro à base de antidepressivos.”

Ainda hoje, Simone se desestabiliza ao lembrar do caso. Chora e diz ter pesadelos. “Ele olhava nos meus olhos, gritava comigo, gesticulava muito. Fiquei paralisada, me senti assustada e não consegui reagir”, diz.

O marido fez o possível para ajudar na recuperação. Em uma saída para jantar, ela simplesmente travou ao passar pela porta do restaurante e ver uma mesa cheia de coreanos da LG, entre eles mister Ahn. Desgastada, Simone espera encerrar o processo e, pouco a pouco, “voltar à rotina, arranjar outro emprego, ter a minha independência novamente e uma vida social, coisas que eu perdi”.

Colaborou Marcelo Rehder



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