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Segunda-feira, 25 janeiro de 2010   edições anteriores
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  ‘O desafio é falar sem ofender a inteligência dos boleiros’

Gilberto Amendola, gilberto.amendola@grupoestado.com.br

O jornalista Tiago Leifert, de 29 anos, chega ao seu primeiro ano como apresentador do programa Globo Esporte com bons índices de audiência e aceitação. Uma realidade bem diferente dos seus primeiros dias no ar, quando os espectadores reclamavam de tudo, das piadas que fazia ao tênis que usava. Nesta entrevista, concedida na última segunda-feira, na sede da TV Globo em São Paulo, ele fala de sua trajetória na emissora, opina sobre a Copa do Mundo no Brasil e comenta o “poder embelezador” da televisão. Leifert também confessa ser nerd, do tipo que não se cansa de assistir a seriados, e conta que pensou até em um reality show para o esportivo.



O ‘Globo Esporte’ decretou a morte do teleprompter (aparelho que mostra o texto que o apresentador lê durante o programa). É uma era de aceitação do improviso e da espontaneidade?

Não trabalhamos mais com teleprompter. Foi minha promessa de campanha. Acabar com o teleprompter simbolizou uma mudança de linguagem. Uma tentativa de aproximar espectador e apresentador. Ele só é ligado quando é preciso dar notas oficiais ou notas de falecimento.



Mas isso causou estranhamento. Você recebeu muitas críticas nos primeiros meses.

Se eu fosse o telespectador e estivesse assistindo ao Globo Esporte eu também iria estranhar. Foi uma mudança muito brusca. De sábado para segunda-feira. Fico feliz pela paciência da maioria das pessoas.



Até da sua roupa reclamaram...

Ainda reclamam. Falavam muito mal do meu tênis. Eu só tinha um par. Era sempre o mesmo. Agora comprei outros. O espectador da TV repara. Poxa, eu me sinto estranho usando camisa por dentro da calça. A roupa que eu apresento o programa é a roupa que eu venho trabalhar de manhã.



Os boleiros pegam no seu pé. Gente que prefere um estilo como o de Milton Neves, mais polêmico, com outra linguagem. Como você se encaixa nesta tradição de cronistas esportivos?

Eu acho que estou completamente fora desta tradição. Falar diretamente com o boleiro acabou virando uma espécie de piada interna entre o apresentador e o boleiro. Não gosto disso. O maior desafio do programa é falar para mais pessoas sem ofender a inteligência do boleiro, que a gente sabe que é super-ultra-especialista.



E que às vezes não tem humor...

É verdade, eles (os boleiros) não têm tanto humor... A gente nunca vai agradar a todos os torcedores do mundo. Eu recebo reclamações das quatro torcidas: hoje você falou muito pouco do Corinthians, falou muito pouco do Palmeiras, São Paulo, Santos.



Você já foi acusado de ser torcedor do São Paulo, do Palmeiras.

Acusado é um bom verbo. As pessoas tentam adivinhar, mas sempre erram.



Nunca declarou?

Nunca.



Por quê?

As pessoas que levam o futebol a ferro, fogo, pedradas e pauladas não estão preparadas para descobrir o time para o qual os jornalistas torcem. Mas acho que esse é um mito que ainda vai cair. A maioria das pessoas ainda vai levar na boa. Tem uma minoria perigosa que não está preparada para esse tipo de informação.



Futebol é entretenimento ou assunto de Estado?

Eu acho que ele é a forma de entretenimento mais importante que existe. Ele tem que ser encarado desta forma. Eu tenho dificuldade de dar uma notícia pesada quando um time perde. É ruim, é péssimo, dói no torcedor... Mas a vida continua. Acima de tudo, futebol tem de ser diversão.



Já foi abordado de forma violenta por algum torcedor?

Não. Graças a Deus. Ao contrário, sempre tem gente querendo conversar sobre o time numa boa. Paro o que estiver fazendo para atender o público. Tenho a exata noção de quem são os meus patrões.

É mais difícil realizar reportagens diferenciadas tendo como material humano jogadores de futebol? São eles que têm sempre a mesma resposta pronta ou são os jornalistas que perguntam sempre a mesma coisa?

Quando a gente muda a pergunta a resposta muda também. Agora, o mais legal é que atletas são pessoas muito interessantes. Existem histórias espetaculares. Só é preciso garimpar. É claro que eles têm sempre aquela resposta que têm de dar, faz parte do jogo. Quando se consegue quebrar esse gelo é incrível.



Hoje, o programa tem um bom espaço para games.

Desde que eu cheguei aqui na Globo, brigo para ter matéria de videogame. No início, não deixavam. Mas, quando elas começaram a ir para o ar, a sensação era de “como a gente não fez isso antes?”. Não dá para ignorar. Você vai para a concentração e os jogadores estão jogando videogame, entra no ônibus e os games estão lá também. Aí, você vai para sua casa e seu filho está com videogame.

E você joga futebol só no videogame? É ruim de bola como a maioria dos jornalistas?

Não. Eu adoro jogar futebol. Paro tudo o que estou fazendo para jogar. Se me ligarem agora, eu paro a entrevista (risos). Jogo no ataque, mas já fui melhor. Estou fora de forma. Quando você joga bola com jornalistas você entende porque eles viraram jornalistas. Nasceram para narrar.



As redes sociais têm sido importante para o programa?

Uso muito o Twitter. Agora, criou-se uma paranoia em relação às redes sociais. Uma obrigação de ter interatividade o tempo todo. Não é assim. Twitter tem que ser o meio. Não o fim. Ah, eu já recebi mais de 80 propostas de casamento via Orkut e Twitter.



Televisão tem esse poder...

É o poder embelezador da televisão. O que não pode é a gente que trabalha com isso acreditar. Não dá para levar a sério.



E o que acha da Copa do Mundo e da Olimpíada no Brasil, sucesso ou roubada?

Antes do anúncio, como todo brasileiro, eu estava com o pé atrás. Mas, olhando a festa que foi, eu fiquei muito empolgado. Por que a gente não merece ter os melhores eventos aqui? Mais do que isso, Copa e Olimpíada são boas desculpas para a gente arrumar nossos problemas de infraestrutura.

Você levaria Ronaldo para a Copa da África do Sul?

Eu levaria o Fenômeno para a Copa fácil. Os zagueiros vão ficar apavorados de ver o maior artilheiro de Copas do Mundo em campo. Ele é uma cartada para o segundo tempo. Ronaldo é o zap do truco.



Quais são suas influências na hora de pensar o programa?

Eu adoro seriado americano. Eu digo com orgulho que eu já assisti a quase todos os programas-pilotos de tudo o que já fez sucesso. Faço um paralelo com o nosso programa aqui. Se um seriado não agrada, ele é cortado da programação sem nenhuma cerimônia. Nós, aqui, temos 30 segundos para capturar a atenção dos espectadores. Não dá para ir em um treino e dizer apenas que o fulano chutou, o técnico falou. O legal de olhar esses seriados é entender como eles conseguem se superar.



Qual é o seu seriado preferido?

Muito atrasado, fui ver The Wire. É genial. Californication é uma coisa espetacular, David Duchovny está um gênio. House é ótimo. Gosto de Lost, embora eu ache que eles se perderam um pouquinho. Heroes também se perdeu. Sou obrigado, por conta do lado feminino da minha casa, a assistir ao Grey’s Anatomy. Acho esse seriado uma desgraça. Quinze minutos antes do fim de cada episódio todo mundo começa a morrer.



Cara, você é um nerd.

Sou. Com muito orgulho. Sou mesmo. Do tipo que abre o computador e fica fuçando.



Tem vontade de virar roteirista de seriado um dia?

Muita. Fiz um curso nos Estados Unidos. Enquanto as pessoas leem ficção, eu leio livros de como escrever roteiros. Se um dia eu surtar e tentar minha sorte com isso, não seria um absurdo. Acho que fazer roteiros é a arte mais legal que existe.



E no cinema, o que você aprecia?

Gosto de Christopher Nolan, o diretor de Batman - O Cavaleiro das Trevas e Amnésia. Poxa, o Batman é um filme de super-herói. O cara está vestido de morcego e ainda assim você assiste àquilo e leva a sério. O diretor tem que ser bom.



Gostou de ‘Avatar’?

Tive discussões sérias aqui na redação. As pessoas estão indignadas porque o Bastardos Inglórios, do Quentin Tarantino, não ganhou o Globo de Ouro. Poxa, o filme do Tarantino você pode assistir em DVD, na sua casa. Mas Avatar, não. Se você assistir na sua casa, você mata o filme. Avatar é cinema - um tipo de filme que há muito tempo a gente não via. O James Cameron mereceu o Globo de Ouro.



Logo logo o ‘Globo Esporte’ perde o apresentador...

Eu gosto do que faço, mas tenho muitos projetos. Tenho várias ideias de programas e formatos. Eu formatei um reality show para o Globo Esporte, mas a dificuldade é que o programa tem apenas 23 minutos. Não dá.



Como seria esse reality?

Não posso contar, mas é legal. Quem sabe a gente não consegue colocar em prática?



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