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Terça-feira, 11 agosto de 2009   edições anteriores
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  Violão 'made in' alma

Como trabalham alguns dos melhores artesãos de instrumentos do País, gente de respeito mundial

Lucas Nobile

Crenças populares pregam que bater três vezes na madeira espanta o azar. Para os luthiers - artesãos de instrumentos musicais - o gesto carrega um significado mais amplo. Bater na madeira, para eles, é sinônimo de conhecimento das verdadeiras obras de arte que eles produzirão. Um trabalho que não aparece aos olhos do público, mas que faz uma diferença vital para os músicos.

Gente como Sérgio Abreu, Lineu Bravo, Samuel Carvalho e Tércio Ribeiro, que já produziram os instrumentos para os maiores violonistas do País, cuidam da matéria-prima de seus instrumentos como se fosse um filho recém-nascido. Chegam a esperar anos para poder trabalhar em madeiras que ficam conservadas em ambientes com a umidade relativa do ar controlada. É algo inerente ao material, que só melhora com o tempo. “Uma madeira e um violão novo nunca terão a mesma sonoridade de um instrumento de dez anos”, diz Samuel Carvalho. “Eu tenho um violão de 1920 que continua se desenvolvendo. Os tampos que uso para construir meus violões têm mais 40 anos de corte”, comenta Abreu.

Não é só a matéria-prima antiga que estabelece essa relação dos luthiers com o passado. A linha de criação buscada por eles encontra as maiores referências nos dois séculos anteriores, com o espanhol Antonio Torres (1817-1892) e o alemão Herman Hauser (1882- 1952), consolidadores do conceito de que se tem hoje de violão tradicional.

Os luthiers de ponta têm profundos conhecimentos musicais, o que lhes permite traduzir em sons as demandas feitas pelos músicos. Lineu Bravo, por exemplo, tocava cavaquinho e bandolim com Alessandro Penezzi e Zé Barbeiro, do grupo Choro Rasgado, antes de fazer os violões do próprio Penezzi, de Guinga, Marco Pereira, Maurício Carrilho, Ulisses Rocha e outros artistas conhecidos, como Chico Buarque, Rosa Passos e Ana Carolina. Samuel Carvalho é bacharel em música e Tércio Ribeiro, luthier dos violonistas Yamandu Costa, Marcello Gonçalves e Paulão 7 Cordas.

O caso mais emblemático em termos de afinidade com o universo musical é o de Sérgio Abreu, de 61 anos. Um dos luthiers mais respeitados do País, ele teve uma carreira sólida como concertista, sendo considerado um dos maiores violonistas eruditos do mundo, de 1963 a 1981, ano em que abandonou os recitais para se dedicar à construção de instrumentos. “Eu procuro construir um violão que eu gostaria de tocar se ainda fosse concertista”, diz Abreu, que já fez violões para Fabio Zanon, grupo Quaternaglia e Pavel Steidl, da República Checa. O padrão de qualidade atingido por esses artesãos tem conseguido mudar uma antiga visão preconceituosa dos violonistas em relação à luteria brasileira. Além disso, os violões produzidos aqui ganham cada vez mais respeito no exterior. “Hoje, nossos luthiers não devem nada para os estrangeiros”, diz Maurício Carrilho. “Cerca de 80% da minha produção vai para fora do País”, diz Carvalho.



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