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'Se me aposentar eu morro, eu vou continuar na estrada'
Aos 69 anos, 51 de carreira, o cantor fala sobre o futuro da música sertaneja no Brasil e relembra as melhores canções de seu vasto repertório - de violão em punho
FELIPE BRANCO CRUZ, felipe.cruz@grupoestado.com.br
Sérgio Reis recebeu o JT na última quinta-feira, em um restaurante de Moema (zona sul), já recuperado de um susto vivido momentos antes: a internação hospitalar de sua mulher, Angela Márcia. Mais do que uma entrevista, o cantor fez praticamente um show particular: de violão em punho, ensaiou uma revisão de toda a sua carreira, intercalando as respostas com trechos de suas principais músicas. Muitas delas o público teve a chance de conferir ontem, durante o show 100% Sertanejo - em São Bernardo do Campo, na Estância Alto da Serra.
Acredita que ajudou a difundir um pouco a música sertaneja no Brasil?
Um pouco não. Tudo. Como diz o Tinoco, a música sertaneja teve duas fases: antes de Tonico e Tinoco e depois de Sérgio Reis
Para conquistar o País com o sertanejo, teve alguma estratégia?
Quando lancei um LP com 12 sucessos sertanejos, em 1975, usei uma estratégia, sim. Por exemplo: a canção Adeus Paulistinha pega no emocional da pessoa do interior. (Falando ao garçom, Sérgio pergunta) Você vem de onde? (O garçom responde: “Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais”) Para você, eu canto (Sérgio pega o violão) “De que me adianta viver na cidade, se a felicidade não me acompanhar...” Olha a cara dele, ele tá chorando. São Paulo tem muita gente que não é daqui, mas eu gravei também Chico Mineiro, para Minas Gerais. Chalana para a fronteira. Pé de Cedro para o Mato Grosso. Gaúcho de Passo Fundo para o Sul e Rio de Piracicaba para o interior de São Paulo. O curioso foi que essas músicas fizeram mais sucessos em outros estados. A programação das rádios FMs mudou para o sertanejo e isso abriu espaço para mim na TV.
A música sertaneja, então, não é só boi e boiada?
Não. São canções com histórias e geralmente histórias tristes. Do meu repertório tem Cabocla Teresa, que é a história do homem traído que matou a mulher. Tem ainda Chalana, sobre a mulher que foi embora, e Menino da Porteira, morto por um estouro de boiada.
No novo CD você gravou a música ‘Nois envorve mais não casa’. Qual é a importância do humor na música sertaneja?
O humor é comum hoje. Temos canções como (Sergio pega novamente o violão e canta) “Hoje é sexta-feira / dia de cerveja” ou “Ela me abraçou / Me deu beijo de mel. E ficou debaixo da aba do meu chapéu” que são para dançar. O público forma as comitivas (grupos) para fazer coreografia nas festas. O sertanejo hoje está espalhado por todo o Brasil, é uma febre. É sucesso em Curitiba e em Manaus.
E qual é a canção mais triste do disco?
É Herói Sem Medalha. Angela (mulher de Sérgio) não consegue ouvir a musica inteira porque lembra do nosso cachorrinho. Ela chora e diz que não quer ouvir. A canção conta a história de um homem que perdeu tudo. Só sobrou seu boi. Para sobreviver ele teve de vendê-lo e trabalhar no matadouro. No trabalho ele percebeu que teria de matar seu boi. O pior foi que o animal o reconheceu e lambeu sua mão. São músicas fortes e servem também como companheiras para os caminhoneiros.
Qual é a importância do caminhoneiro para a sua carreira?
Como disse, a música tem de ser companheira. E eu sou companheiro dos caminhoneiros. A música serve para alegrar o coração, para acalmar a alma e emocionar. É nisso que o artista tem de se preocupar. Tem de fazer música para aquele que vai ouvir e comprar seu disco.
O sertanejo é um fenômeno no País. Você acha que existe preconceito contra a música?
Hoje não. Bobagem. São gostos diferentes. Tem gente que não gosta de Ana Carolina. Eu gosto. Temos uma nova geração da MPB que é ótima. Não pode ter preconceito aí. Se a coisa é boa, ela deslancha. Se um ricaço bonitão vai para a fazenda ele não leva MPB para tocar. Leva dupla caipira. Música sertaneja combina com galinha, carneiro berrando e beira de rio.
É verdade que Benedito Ruy Barbosa escreveu a novela ‘Pantanal’ na sua fazenda?
Não tinha espaço para Benedito Ruy Barbosa fazer novela em horário nobre na TV Globo. Só na faixa das sete. Eu tinha um hotel no Pantanal, no Rio São Lourenço, o Pouso da Garça. Convidei ele para pescar durante dez dias. Quando ele colocou os pés no meio do rio, disse que estava no paraíso. Só dava para chegar lá de avião, não tinha estrada, era tudo floresta. O Ruy me disse que iria escrever uma novela que tomaria conta do mundo e fez a sinopse de Amor Pantaneiro. Ele ofereceu para a Globo e pediu horário nobre, mas negaram. Tempos depois mataram Chico Mendes e a Rede Manchete decidiu fazer uma novela rural. Como Ruy tinha vendido os direitos de Amor Pantaneiro para a Globo, ele escreveu uma nova novela, Pantanal, e foi aquele fenômeno - inclusive nessa reprise do SBT.
O que achou de ver o SBT reprisar ‘Pantanal’?
Só me fez bem. Foi lá que eu entrei nas novelas. Ganhei mais direitos autorais, minhas músicas voltaram a tocar.
Gostou da regravação do filme ‘Menino da Porteira’, com o cantor Daniel no elenco?
Já disse para o Daniel que ele vai virar ‘Daniel Reis’. Assim como eu, ele também estrelou em seguida a novela Paraíso, no mesmo papel que o meu. Falei para montarmos uma dupla sertaneja (risos). Gostei da atuação dele. Falei na semana passada para o Benedito que ele está fazendo com o Daniel o mesmo que fez comigo. Daniel está assustado com tudo, mas Benedito disse que ele está melhorando. Esses dias dei um susto no Daniel, disse que ele poderia, pelo menos, me convidar para ser avô do menino da porteira.
É mesmo verdade que Daniel cantava a música ‘Menino da Porteira’ errado?
Quando ele completou 20 anos de carreira fez um show para comemorar. Eu participei cantando junto. No ensaio, quando começamos a cantar a parte: “Nos caminhos desta vida muitos espinhos eu encontrei, mas nenhum calou mais fundo do que isso que eu passei”, Daniel em vez de cantar “calou mais fundo” cantava “calor mais fundo”. Ele sempre achou que a palavra era ‘calor’. Caímos na gargalhada. Ele tem um carisma grande. Já me perguntaram porque deixei ele cantar Menino da Porteira. Respondi que a música não é minha, mas mesmo que fosse eu liberaria para ele gravar.
Ele é o substituto do Sergio Reis?
Por que não? Ele pode dar uma continuidade nesta turma de cantores que viram atores. Tem cantores que fazem o inverso. Como é o caso do Fábio Jr.
Acredita que a música sertaneja tem de se reinventar?
O que dizem que hoje é sertanejo, não é. São músicas de estilo pop cantadas em dueto. Não diga que eles não têm cultura caipira, porque eles têm sim. Vieram de roça, plantavam tomate e têm muita voz. O que é bom tem de tocar.
Você começou sua carreira na Jovem Guarda, com o Roberto Carlos. Não vai participar das comemorações de seus 50 anos?
Roberto não tem 50 anos de carreira. Se for assim, eu tenho 60 anos de carreira porque eu comecei a cantar com 15 anos. A conta é quando você gravou o primeiro disco. Eu gravei o meu em 1958, para 2008 dá 50 anos. Esse ano eu completo 51. Acho que vou lá na Caninha 51 pedir um patrocínio para as comemorações dos meus 51 anos (risos). Para o Rei vale tudo. O Roberto é um cavalheiro, carinhoso com todos, muito educado e amigo dos amigos. É um artista hors concours. Ele canta e não tem desafinação. O especial de seus 50 anos foi uma das melhores produções que eu já vi no Brasil. O povo só não merecia a chuva, mas não perdeu o brilho.
Quando você se descobriu um cantor sertanejo?
É o caminho que os artistas procuram até achar o rumo. Comecei a compor e vieram falar comigo. (Sergio Reis toca e canta no violão uma série de canções da Jovem Guarda). Em um ano gravei 86 músicas como autor. Até que fui para a Odeon gravar Coração de Papel. Essa canção foi o divisor de águas.
Já levou muitos ‘nãos’?
O artista tem de sofrer. Se ele não quebrar a cara e ouvir muito ‘não’, ele não tem força para resistir, ser perseverante e conquistar o que ele quer. É assim em qualquer profissão. O ‘não’ é fabuloso. Ele dá uma garra, porque você sai trabalhando e não tem tonto que segure você mais.
O que você acha desse movimento do sertanejo universitário.
Fazia isso há 33 anos. Em Machado (cidade no interior de Minas Gerais) tem uma faculdade de agronomia. Eu ia para lá fazer festas. Só cantava para universitário e eles me pediam para cantar Caminheiro, o hino dos universitários. (Sergio canta) “Caminheiro diga pra mãe, para não se preocupar. Se Deus quiser este ano, eu consigo me formar. Eu pegando o meu diploma, vou trazer ela pra cá.”
Aos 69 anos, já começou a pensar sobre a aposentadoria?
De forma alguma. Se me aposentar eu morro. Vou continuar na estrada até as pernas aguentarem e o povo quiser.
Há cinco anos você teve um AVC. Como cuida da saúde?
Esse derrame me deixou um pouco cauteloso. Tive de operar o cérebro. Graças a Deus não fiquei com sequelas. Não podemos ter medo de nada. Emagreci 14 quilos e hoje controlo a alimentação. Para aguentar o meu pique tem de ser assim. Se não, aos 69 anos, eu não aguentaria.
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