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Sábado, 4 julho de 2009   edições anteriores
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  Algo que soa familiar

Vozes de dubladores de personagens famosos do cinema passam a ganhar status de estrela

Fernanda Brambilla, fernanda.brambilla@grupoestado.com.br

Vozes que ganham vida própria. É assim que podem ser definidos os timbres de alguns dubladores até então renegados à sombra das cordas vocais do personagem de cinema que interpretam. A fidelidade desses dubladores a criaturas que nunca saem das telas por muito tempo, como Harry Potter e Homem Aranha, ganham assim fama quase que do tamanho dos personagens.

Sempre que um novo Harry Potter está para estrear, Caio César espera pelo rebuliço dos fãs. Depois de seis filmes em oito anos como o representante oficial da voz do ator Daniel Radcliffe, Caio foge de investidas com feitiços. “Wingardium Leviosa!”, ele diz, repetindo as palavras mágicas ditas por Potter. “Por contrato, não posso contar nada da história.”

Ele tinha apenas 12 anos quando o primeiro filme foi rodado, ou seja, cresceu junto com Harry. “Hoje, Harry Potter tem outra cabeça, mas no começo era uma criança, como eu”, lembra ele, que entrou no ramo por acaso. “Foi ideia do meu pai. Eu mesmo queria fazer natação.”

Luiza Palomanes, 22 anos, entrega logo o tom agudo característico de Hermione, a bruxinha amiga de Potter que é dublada por ela. “É voz de desenho animado, né?”, brinca. Luiza diz usar na vida real os chiliques da estudante de magia metida a sabichona. “Eu também sou assim, de ter opinião formada sobre tudo.” E comprova. “Torço para que os dois namorem.” Muita gente que a ouve falar lembra também de Docinho, uma das Meninas Superpoderosas a quem empresa a voz. “Dessa, todo mundo se lembra.”

Mário Jorge é dono da voz de John Travolta e de Eddie Murphy no Brasil. Seus maior sucesso, no entanto, são as dublagens que faz para o burro da trilogia Shrek (2001, 2004, 2007). “Eu até sonho com a voz, não aguento mais esse burro”, ri. “Certa vez, uma amiga me pediu para falar com sua sobrinha, que é apaixonada pelo burrinho. Topei pela criança. Na hora, tomei um susto. A sobrinha tinha mais de 30 anos.”

Uma vez que a voz é revelada, não há saída. “Em festas, começa aquele burburinho. Um conta pro outro e, dali a pouco, todo mundo quer que você imite”, diz Mário. As falas que mais pedem na rua são as de sua autoria. “Qual é, Shrek?”, repete, orgulhoso.

Quando está em rodinhas de crianças, a dubladora Fernanda Crispim, 33 anos, já sabe que não terá sossego. Seu status de Princesa Fiona lhe rende pedidos embaraçosos por uma mesma frase: “Ah!”, ela dá a interjeição de surpresa, e emenda, para o riso certeiro: “Shrek, tem uma flecha na sua bunda!” Já entre o público feminino, a vozinha de menina tem fins mais românticos. “Me pedem muito pra dizer: ‘Eu mudei pra você, Shrek’”, declaração amorosa do casal de ogros. No caso de Fernanda, Fiona apareceu por acaso, já que atores famosos, como Cameron Diaz, têm dubladores próprios.

Manolo Rey, 42 anos, se firmou como o dublador oficial de Tobey Maguire, o Homem-Aranha. Mesmo depois de três filmes, ele repete a máxima da série: ‘Grandes poderes trazem grandes responsabilidades’. Mas a associação de personagem e voz não é imediata. “As pessoas primeiro ficam me olhando, desconfiadas, tentando descobrir de onde conhecem a voz”, diz. “Uma vez eu brinquei: ‘Estou todo dia na sua casa’”. Mas a piada não colou. “Quase apanhei! Não entenderam que era brincadeira. Não fiz mais.” Manolo não esquece a estratégia que lhe rendeu seu principal papel. “O Homem-Aranha não tem voz de herói. Peter Parker tem uma voz de um ‘deprê bundão’. Desde o começo fiz assim.”

E nem o tempo dissipa os fãs mais aguerridos. Que o diga Mauro Ramos, que não consegue se livrar do porco Pumba, de O Rei Leão (1994). É comum entoar, na rua: “Porco? Senhor porco!”, com timbre grosso. Em uma convenção nacional, três anos atrás, veio o apelo para cantar Hakuna Matata, clássica no filme. Sem saber a letra, ganhou um papel com a música inteira escrita a mão. Quando puxou a cantoria, teve uma surpresa. “Todo mundo sabia cantar.”



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