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Quinta-feira, 2 julho de 2009   edições anteriores
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  Senta que lá vem uma história impagável

Roberto Carlos Ramos, quando criança, fugiu 132 vezes da ex-Febem. Sua vida vai virar um filme

Fernanda Brambilla

Roberto Carlos Ramos, 6 anos, foi invejado pelos nove irmãos ao ser contemplado com uma vaga na recém-criada Febem (Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor, hoje extinta). Ali, começava a história do “brasileiro que não desiste nunca”. Mas até ser imortalizado pelo comercial e inspirar um filme que estreia em agosto, este mineiro foi garoto-problema, desregrado, trombadinha, drogado.

Quatro décadas depois, formado professor, Roberto, já com 43 anos, segue à risca uma lição da mãe: “História triste você pode contar chorando ou vendendo lenço”, lembra ele, que ganha a vida há 20 anos dando palestras em empresas e universidades onde se apresenta como um contador de histórias. Este também foi o título que o diretor Luís Villaça escolheu para o filme que acaba de rodar sobre a vida de Roberto. “Aprendi a vender meu peixe”, brinca o palestrante.

Naquele início da década de 70, porém, Roberto não sabia se defender. Inconformado com os maus-tratos da instituição que deveria formá-lo cidadão, via como solução a fuga. Fugiu 132 vezes, um recorde. Voltava para comer. E assim vivia. Aos 10 anos, foi considerado um caso irrecuperável. “Anunciavam aquilo como uma instituição séria. Não se sabia o pesadelo que era lá dentro”, conta Roberto. Sua mãe mesmo ficava apreensiva por não poder levar todos os filhos ao lugar. “Toda mãe queria uma vaga na Febem. Foi um sacrifício conseguir. Quando pediram para ela escolher um filho, ela me escolheu.”

Acostumado a amenizar as experiências traumáticas de sua infância, Roberto conta relatos tristes com a alegria de uma piada - hábito de quem se habituou a ver rostos perplexos à frente. “Partes mais trágicas eu conto rindo. Muita gente fica chocada nas palestras, me olhando como se questionassem se tudo aquilo que eu falo ali é verdade.” Muitos choram.

É triste ouvir que, aos 14 anos, ele foi condenado à ‘solitária’ e ficou três dias em uma cela no escuro, sem comida e sem dormir, sua pior privação até então na Febem. “No terceiro dia, o guarda me acordou com um balde de água gelada. Vinha mais um castigo, passar aquela noite de pé”, lembra o contador de histórias. Quando a cela finalmente se abriu, Roberto precisou, uma última vez, passar pelo guarda. Levou um forte tapa no rosto. “O estampido foi tão forte que escuto esse barulho até hoje.” As palavras que ouviu o marcaram. “Ele olhou pra mim com desdém e disse: ‘Você não tem mais jeito, vai sair daqui pra roubar, estuprar, matar’.”

Por alguns instantes, ainda interno, Roberto até acreditou que este seria seu destino. “É vergonhoso dizer isso, mas deu vontade. Fiquei enfurecido e pensei: ‘Vou sumir daqui e é isso mesmo que vou fazer”. Só não fez porque recebeu uma visita que mudou seu destino. “Isso aconteceu na semana em que a Margherit apareceu. Ainda bem...”

Margherit Duvas (interpretada por Maria de Medeiros no filme que vem por aí) é uma pedagoga francesa, que chegou à Febem para uma pesquisa e foi apresentada a Roberto, o “caso irrecuperável”. Ela não entendia o motivo de tantas fugas. “Mostraram o pau de arara para a senhora?”, o menino provocou. Roberto voltou a fugir, mas Margherit o encontrou em uma praça e o levou para sua casa. A ingenuidade da francesa, de início, o tentou. “Pensei em roubar TV, videocassete”, ele confessa. Mas se rendeu. Foi alfabetizado e viajou à França, onde morou por quatro anos em Marselha e concluiu os estudos. Voltou ao Brasil reformado e foi fazer faculdade.

Formado em pedagogia pela UFMG, ele fez questão de voltar à Febem, para comprovar que não tinha morrido, mas também para mostrar o quanto eles estavam errados. “Falaram que tinham me feito uma lobotomia”, ri Roberto.



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