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A greve que tumultuou, mesmo tendo fracassado
A greve de funcionários da Universidade de São Paulo (USP) foi encerrada anteontem, após 57 dias em que a rotina acadêmica não sofreu alterações de monta, pois a adesão de alunos e professores foi praticamente nula. Mas a paralisação - convocada por motivos menores, como a readmissão do presidente do sindicato dos funcionários, Claudionor Brandão, que a Justiça mandou demitir por conta dos processos criminais a que responde, e de mais de 5 mil servidores nomeados contra recomendação do Tribunal de Contas do Estado (TCE) - prejudicou a vida de estudantes carentes e perturbou a paz na cidade. A pretexto de uma pauta de reivindicações recheada de propostas vagas e politicamente corretas, sempre em defesa do ensino público e outras bandeiras simpáticas, os grevistas impediram o funcionamento de serviços essenciais para a vida normal no câmpus, como restaurantes (um deles foi invadido de forma truculenta, enquanto estudantes comiam), creches e linhas de ônibus. E, para chamar a atenção para seu movimento, eles também obstruíram a circulação de automóveis na região próxima à Avenida Paulista: impediram o acesso de ambulâncias aos 17 hospitais que atendem nas ruas congestionadas, por causa de uma passeata da qual participou um número de pessoas suficiente para parar o trânsito, mas insignificante se comparado com os 5 mil professores, 15 mil funcionários e 86 mil alunos da universidade.
A “aula” dada por ilustres membros do corpo docente - o crítico literário Antonio Candido de Melo Souza e a filósofa Marilena Chauí - mostrou a simpatia de parte da elite intelectual bem-pensante pelo movimento, mas não evitou seu fiasco. Ao tentarem ocupar a Reitoria, o que conseguiram em 2007, os grevistas praticamente forçaram a reitora, Suely Vilela, a pedir à Justiça a reintegração de posse do prédio e que evitasse que os piquetes obstruíssem o acesso a classes e gabinetes por quem queria trabalhar, ensinar ou estudar. Isso não seria possível sem a intervenção policial, e as tropas convocadas para fazer valer o primado da lei no Estado Democrático de Direito foram tidas, equivocadamente, como sinal de volta à truculência autoritária.
As tentativas retóricas e, às vezes, violentas da minoria para impor sua vontade não bastaram para fazer com que a imensa maioria abandonasse a rotina de provas, aulas e expediente de trabalho para fazer o jogo de entidades sindicais vinculadas a dissidências microscópicas de minúsculos partidos radicais de esquerda. A greve inoportuna foi interrompida pelo calendário escolar, quando veio o recesso de julho. A comunidade acadêmica e a sociedade que a sustenta esperam que a reitora não se deixe seduzir pelo canto da sereia da reivindicação do pagamento dos 57 dias parados em contrapartida a “compensações” que, dificilmente, esses sindicalistas e seus punhados de asseclas teriam condições de oferecer. A volta à normalidade deve incluir o desconto dos dias não trabalhados.
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