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Desafinada só no palco
Já que a TV a faz querer ‘cortar os pulsos’, Marília Pêra vai ao teatro com a peça ‘Gloriosa’
FERNANDA BRAMBILLA, fernanda.brambilla@grupoestado.com.br
Desafinada no palco, mas muito afiada fora dele.Marília Pêra, 66 anos, estrela a partir de hoje o espetáculo Gloriosa, em que vive Florence Jenkins, “a pior cantora do mundo”. Mas se no teatro a atriz promete maltratar a própria voz e os ouvidos do público, fora dele, as piores críticas de Marília recaem sobre a TV. A intérprete da cantora lírica norte-americana (1868-1944) está fora das telinhas desde Duas Caras (2008) e, no fundo, dá a entender que prefere assim. “Só no teatro o ator tem poder e consegue viver outras vidas. Adoro fazer televisão e quero continuar fazendo, mas sem a vontade que me dá de cortar os pulsos.”
Essa ‘vontade’ vem do desencontro entre seu conhecido perfeccionismo e a forma como são gravadas as novelas. “Precisa ser mais organizado. São horas de gravação para o diretor depois cortar, editar, e tudo aquilo virar uma cena de 30 segundos.” Mesmo desgostosa, Marília trata de esclarecer: “Acredito que a Globo não me chamou para novela porque respeita a Gloriosa. Mas é a Globo que manda”, diz.
Com 62 anos de carreira - começou aos quatro no teatro - Marília prefere conviver com críticas e “uma ioga pesadíssima” a pensar em aposentadoria. “Tem uma vozinha na minha cabeça que diz ‘Para. Chega. Sai’. Depois de tantos trabalhos, é difícil não me repetir. Quero parar por um ano, mas preciso aprender a dizer não, e é tão difícil.”
O melhor exemplo, ela tem em casa. Sua mãe, Dinorah, aos 90 anos, foi convidada para integrar o elenco do humorístico Zorra Total, da Globo. O médico proibiu. Marília desaconselhou. Em vão. “Sabe o que ela me disse? ‘Se eu disser não, nunca mais me chamam para mais nada’.”
Diva desafinada
Depois de dar vida e voz a divas como Maria Callas, Carmem Miranda e até Mademoiselle Chanel, Marília fez o impensável: por Florence, precisou aprender a errar o tom, nota a nota. Justo Marília, que estuda canto, faz aulas de dança e teve o talento de cantora reconhecido até por Roberto Carlos. Até as broncas dos diretores foram inéditas. “Eles me falavam: Marília,está afinando muito’.”
Mas na pele de Marília Pêra, até Florence Jenkins tem seu momento de redenção. “Depois de desafinar em tudo, ela morre, mas volta em Ave Maria”, orgulha-se. Enfim, afinada. “Não vou dizer que volta bem, porque nunca acho que canto bem, mas muito melhor do que antes”, ressalva. Na vida real, a cantora morre de desgosto, deprimida com a crítica. Marília a defende. “Alguém diz para Ana Maria Braga não aparecer vestida de Madonna, que é ridículo? Claro que não. Falar pra quê? Tem gosto pra tudo.” ,
DIVIRTA-SE
Gloriosa. Teatro Procópio Ferreira: Rua Augusta, 2823. Tel.: 3083-4475. Qui. e sáb., às 21h; sex., às 21h30; dom. às 18h. Ingressos: R$ 70 (qui); R$ 80 (sex. e dom.); R$ 90 (sáb.). 12 anos
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