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Sexta-feira, 5 junho de 2009   edições anteriores
OPINIÃO
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  Ímpeto assassino a pretexto da paixão pelo esporte

Por volta das 21 horas de anteontem, vândalos travestidos de torcedores do time de futebol mais popular da cidade, o Corinthians, deram seu cartão de visitas aos adversários, torcedores do Vasco da Gama, do Rio de Janeiro, na Avenida Marginal do Rio Tietê, entre as Pontes das Bandeiras e da Casa Verde, na zona norte. Os anfitriões (diz-se de um time que joga em sua cidade que o faz “em casa”) receberam os visitantes, que rumavam num comboio de dez ônibus para o Estádio Paulo Machado de Carvalho, no Pacaembu, onde, 50 minutos depois, seria jogada a semifinal da Copa do Brasil, não com gestos de boas-vindas, como manda a boa educação, mas emboscando-os, como se fossem inimigos figadais, e não meros simpatizantes da agremiação rival. A reação destes foi igualmente selvagem: do conflito resultou a morte de um corintiano, abatido a golpes de barras de ferro. Em represália à morte, antes do fim do jogo, na vizinhança do estádio, um grupo incendiou um ônibus estacionado à espera de vascaínos para voltarem a sua cidade atirando-lhe um coquetel molotov.

Dessa barbárie restaram dúvidas no ar. Como os anfitriões agressores conseguiram parar um comboio de dez ônibus, cuja segurança, em teoria, é da alçada da Polícia Militar (PM), encarregada de manter a ordem no gramado, nas arquibancadas e nas ruas perto do estádio? Este fato e a constatação de que não se registraram brigas entre as torcidas no estádio evidenciam a necessidade de repensar a forma de reprimir confrontos violentos a ponto de produzirem cadáveres. Esta é a parte da polícia para evitar tragédias. Estratagemas como o de isolar os visitantes até a saída total dos anfitriões tornam-se inócuos para coibir a violência, que foi transferida do estádio para fora dele.

No que concerne ao Ministério Público (MP), chegou a hora de tratar esses delitos, não como resultantes da violenta paixão pelo esporte, mas, sim, de formação de quadrilha e bando para a prática de delitos contra a vida. Para tanto, será necessário proibir a organização e as reuniões desses grupos de malfeitores que disfarçam atividades fora da lei envergando uma fantasia que não deveria mais enganar ninguém: camisetas com as cores de um clube e dísticos referentes a uma “torcida organizada”.

Os conflitos antes e depois do jogo de anteontem puseram termo às ilusões de quem acredita na rivalidade esportiva como estopim desses conflitos fatais. No caso não estava sendo jogada uma partida entre times locais de grande rivalidade, caracterizando-se, ao contrário, um “jogo de uma torcida só”. Não havia, portanto, violenta paixão futebolística, mas ânimo criminoso. Os clubes que bajulam essas associações de assassinos lhes facilitando acesso aos locais de treinamento e às arquibancadas devem ser tratados como cúmplices, e não, como têm sido até agora, como “inocentes úteis”.

O cadáver de anteontem é mais uma prova da necessidade da mudança de mentalidade e de estratégia para pôr fim à mortalidade a pretexto do esporte.



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