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Incor cria exercícios para reduzir o ronco
Novo tratamento fortalece musculatura
Humberto Maia Junior, humberto.maia@grupoestado.com.br
O casamento de Maria Creuza, de 62 anos, e João Alves de Carvalho, de 65, sempre foi muito bom - menos na cama. Os dois roncavam. “Eu não sabia que roncava e me queixava dele. E ele dizia que eu roncava”, conta. “Era uma briga danada.” Até que os dois, casados há 35 anos, procuraram tratamento no Laboratório do Sono do Serviço de Pneumologia do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas (Incor), descobriram que sofriam de apneia obstrutiva do sono e, graças a uma técnica inovadora, hoje as brigas acabaram. “Agora não roncamos mais.”
O ronco era o menor dos problemas causados pela apneia. Problema que atinge cerca de um terço dos paulistanos, a doença afeta a qualidade de vida das pessoas ao impedir uma boa noite de sono.
“Apneia causa fragmentação do sono”, diz o diretor do Laboratório do Sono do Incor, Geraldo Lorenzi Filho. “Daí vem a sonolência durante o dia e, com isso, perde-se em qualidade de vida: há perda de produtividade no trabalho, dificuldade de concentração, queda na libido, problemas no metabolismo e resistência à insulina (hormônio responsável pelo metabolismo da glicose).”
O tratamento criado pela fonoaudióloga Kátia Guimarães consiste numa série de exercícios para fortalecer os músculos da garganta para evitar que, durante o sono, a faringe se feche, o que interrompe a respiração. Por três meses, um grupo de 16 pessoas fez séries diárias de 30 minutos. No final do período, o número de interrupções na respiração durante o sono caiu de uma média de 22,4 para 13,7 por hora. A intensidade do ronco passou de “muito alto” para “próximo da normalidade”. O resultado foi a melhora na qualidade do sono.
Lorenzi Filho diz que os exercícios são indicados para pacientes que sofrem os casos leves e moderados da doença. Segundo ele, 60% dos casos moderados passaram a leve depois dos três meses de tratamento.
Nos casos mais graves, a indicação é uma máscara geradora de pressão que expande as vias aéreas. “Ela não é cômoda, mas é a melhor forma de tratamento nos casos mais complexos.”
O especialista diz que a apneia é mais comum em homens e a chance de se desenvolver aumenta com a idade, quando ocorre um relaxamento natural da musculatura do corpo. Obesidade também aumenta os riscos. “O homem concentra a gordura na barriga e na garganta. A mulher, nos quadris.” Segundo Lorenzi Filho, a menopausa é fator que pode desencadear a apneia nelas.
Para a pneumologista e pesquisadora do Instituto do Sono Sônia Maria Tozeiro, o novo tratamento ainda precisa de mais testes para que seja aceito sem restrições pela comunidade científica. “É preciso haver mais evidências de que realmente funciona.”
Maria Creuza é uma das 16 pessoas que melhoraram com os exercícios. Antes, tinha dificuldades de concentração e sentia vontade de dormir durante o dia. “Acordava cansada, como se não tivesse dormido.” Daí não tinha jeito: no ônibus, pendia o pescoço para baixo e para cima, naquele “ioiô” que só é engraçado para quem está observando. Na missa, mal aguentava ouvir o sermão do padre. “Era o maior vexame”, diz. E o casamento? “Agora que não roncamos mais, está tudo bem.”
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