estadao.com.br Estadao Jornal da Tarde Agencia Estado Eldorado AM Eldorado FM iLocal ZAP
   
Tabelas do esporte
BLOG
Advogado de Defesa
 
 
  
      Busca local   
Domingo, 17 maio de 2009   edições anteriores
CIDADE
 ÍNDICE GERAL | ÍNDICE DA EDITORIA | ANTERIOR | PRÓXIMA
  Vilas de estações fantasmas

Fim das linhas férreas deixou no abandono 25 vilas no Estado, e patrimônio fica em ruínas

RODRIGO BRANCATELLI, rodrigo.brancatelli@grupoestado.com.br

É como se Nilton Arnaldo Fogo estivesse a compensar todos esses anos de esquecimento. Um dos últimos moradores de São Bento, bairro rural de Araras, no interior de São Paulo, o mecânico de 75 anos, passos miúdos e gestos lentos, vira uma criança quando começa a falar da época em que os trens barulhentos da Companhia Paulista passavam bem na frente da sua casa. A memória esburacada simplesmente desaparece; as palavras quase se atropelam em sua boca; a fala mole e arrastada se transforma em estridente, de tanta empolgação.

“Meu filho, se eu não contar essa história para você, ela vai se perder. Acho que, quando eu morrer, a minha vila também morre”, diz ele. São Bento existe no mapa desde 1º de dezembro de 1885, quando a estação ferroviária foi inaugurada. Pelo menos 400 famílias moravam nos arredores, havia posto de correio, três armazéns de secos e molhados, botequins, duas sorveterias. Mas a exemplo de inúmeras vilas que se formaram ao redor de estações ferroviárias, a de São Bento perdeu a importância depois que o trem parou de passar por ali, em fevereiro de 1977.

Os vizinhos do mecânico foram embora, as lojas fecharam, a estação foi desmanchada e as casas, demolidas. Hoje, com apenas cinco imóveis em pé, São Bento é uma cidade fantasma, um capítulo destruído e esquecido da história do desenvolvimento paulista.

“Eu cheguei aqui em 1940 e tudo girava em torno da estação”, conta Nilton. “Lembro que eu pegava o trem para a capital às 5h45 e voltava às 21h30. Mas quando os trens pararam, a vila parou também, todo mundo foi embora. Semana passada mesmo, derrubaram as últimas 20 casas ali atrás, só sobrou tijolo”, afirma.

Outrora pontos de partida para a formação de bairros e cidades, as linhas hoje podem ser consideradas imensas cicatrizes pelo Estado, grandes vazios habitacionais. Há pelo menos 25 localidades que foram levadas ao isolamento, onde as estações foram abandonadas e o patrimônio virou ruína.

Os reflexos do desmantelamento das linhas ferroviárias se mostra em números - se na década de 1930 cerca de 70% da população vivia nas áreas rurais, hoje esse índice não chega a 6% no Estado. A reportagem percorreu cerca de 2.500 quilômetros em busca de locais como Nova Louzã, Paraisolândia, Nova Pauliceia, Monte Alegre, Ouro, Guanabara, Coronel Pereira Lima, Cresciuma e outras vilas esquecidas. No caminho, achou antigos moradores, explicações para o êxodo rural, exemplos de descaso e omissão dos órgãos de patrimônio. “Eu queria ter guardado mais coisas dessa época de ouro, porque atualmente eu só tenho umas fotos e a minha memória”, diz Nilton.



    Links Patrocinados
  Estadao.com.br | O Estado de S.Paulo | Jornal da Tarde | Agência Estado | Radio Eldorado | Listas OESP
  Copyright © Grupo Estado. Todos os direitos reservados.