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'A bandidagem que se cuide'
Após 17 anos, oficial que já participou de mais de 20 tiroteios, volta a comandar a Rota
MARCELO GODOY, marcelo.godoy@grupoestado.com.br
Há na polícia homens conhecidos porque com eles tudo teima em acontecer. Novo comandante da Rota, o tenente-coronel Paulo Adriano Lopes Telhada é um desses. Ele já levou pedrada em manifestação na Avenida Paulista, foi baleado duas vezes e promovido por ato de bravura. Participou de mais de 20 tiroteios com uma dezena de mortes - a última em 2008, nos Jardins, zona sul de São Paulo, quando chefiava o 7º Batalhão. “Tudo acontece comigo.” É respeitado pela comunidade gay paulistana e toca clarinete na igreja onde é o “irmão Paulo”.
Fazia 17 anos que Telhada estava fora da Rota. O braçal e a boina preta estavam no armário - havia o sonho de voltar um dia. Aos 47 anos, o tenente-coronel, que tem em sua ficha dezenas de elogios e punições, assumiu o batalhão no dia 8. E, já no primeiro dia, a Rota fez uma operação contra o crime organizado. Prendeu dois traficantes, aprendeu sete armas e dois carros. À noite, após um roubo, uma equipe do batalhão matou dois acusados do crime e prendeu um terceiro, um presidiário que recebera o direito de passar o Dia das Mães em casa.
“A Rota vai agir na legalidade. Ela não vai sair na rua para matar. Mas, se o vagabundo puxar a arma para um policial da Rota, meu homem vai voltar vivo para casa. Se a Rota chegar é pra se entregar.” Em sua mesa no quartel, o tenente-coronel mantém fotos da família, um boneco do super-homem e uma réplica de um avião B-17, usado pelos Aliados na 2ª Guerra Mundial - ele escreveu uma história sobre a participação da polícia paulista na Força Expedicionária Brasileira (FEB), na campanha da Itália, na 2ª Guerra Mundial. “Vou no dia 31 à França assistir às comemorações do desembarque na Normandia.”
Telhada está vibrando. “Ele tem uma ascendência impressionante sobre a tropa”, disse o coronel da reserva Mário Fonseca Ventura. Sua família o viu apenas um dia desde que assumiu o batalhão. Foi no domingo, quando Telhada se transforma no irmão Paulo, da Congregação Cristã do Brasil. O comandante é homem religioso. Ao aperto de mão, segue-se a saudação: “A paz de Deus, irmão.” Evangélico desde o tempo em que eles eram chamados de “crentes”, Telhada tinha 15 anos quando foi batizado.
Depois, virou policial. Saiu aspirante na turma de 1983 da Academia de Oficiais do Barro Branco. Tinha dúvidas sobre o que ocorreria caso matasse alguém, mas foi tranquilizado pelo pastor, que disse: “A porta que Deus abre, ninguém fecha.” Aos 23 anos sua equipe matou dois bandidos, prendeu outros dois e libertou 11 reféns. Acabou condecorado. O tenente Telhada, que estava no 4º Batalhão, foi parar na Rota. Era 23 de junho de 1986, quando entrou no famoso quartel amarelo da Avenida Tiradentes, no centro.
Ali o tenente começou a criar fama de que tudo acontecia com ele. Uma vez, acompanhado da reportagem do Jornal da Tarde, parou em uma delegacia para deixar um suspeito quando uma mulher lhe disse que havia sido expulsa de casa por um bandido. Telhada foi à Vila Brasilândia, na zona norte. Mandou o homem sair. O suspeito abriu a porta e deu três tiros. Acertou o braço do tenente; acabou morto. “Fui baleado duas vezes. A outra foi na mão.”
Em 10 de abril de 1992, ele saiu da Rota. Telhada comandava a companhia de Perdizes em 1996, quando cruzou com três ladrões na Av. Doutor Arnaldo. O tiroteio deixou os três acusados mortos e fez dele o primeiro oficial a deixar o comando de uma companhia para frequentar o Proar - o programa de assistência psicológica da PM, na época obrigatório.
Admiração
Tornou-se amigo do apresentador de TV Gugu Liberato, de quem teria cuidado da segurança. O suposto bico lhe rendeu uma investigação. “Já viu policial de rua sem punição?”Passou a trabalhar no centro da cidade e cuidou do policiamento da Parada do Orgulho LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), o que lhe valeu a admiração de seus participantes.
Assim o tempo passou, Telhada ganhou alguns quilos e as duas estrelas gemadas de tenente-coronel. No dia 6, foi chamado ao gabinete do secretário da Segurança, Antônio Ferreira Pinto. “Você vai assumir a Rota”, disse o secretário. As prioridades eram combater o crime organizado e levar a Rota à periferia. O desejo atual é resgatar um instrumento que muitos coronéis tiveram medo de usar - para evitar problemas, houve comando que mandou a Rota patrulhar só o centro. Telhada sabe que será cobrado. “Vou retomar a doutrina da Rota, a vibração. Nós vamos vencer. A bandidagem que se cuide.”
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