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Contravenção poética
Fomos investigar o movimento por trás da frase pichada em vários muros da cidade
GILBERTO AMENDOLA, gilberto.amendola@grupoestado.com.br
Quem circula pela cidade, seja andando, de carro ou em qualquer transporte coletivo, já deve ter se deparado com a seguinte pichação: “O amor é importante. P...” A reportagem do Jornal da Tarde foi procurar pistas sobre essa misteriosa inscrição. Pura contravenção? Arte de rua? Golpe publicitário? Vandalismo?
Os muros da Rua da Consolação, da Avenida Sumaré, da Rua Augusta, da Pedroso de Morais e de muitos outros pontos foram marcados por essa frase - que mescla autoajuda romântica e grosseria deslavada. Embora venha chamando atenção, ela não é a única (e nem a primeira) pichação a se destacar na paisagem urbana. “Odeie seu ódio”, “ame seu amor”, “a vida te trata como você se trata” e “você passa mais tempo no trânsito do que com a sua família” também estão por aí.
A pesquisadora de arte urbana Caru Albuquerque explica o origem das frases. “Podemos chamar esse movimento de pichação poética. O pichador que pratica este estilo não quer apenar marcar seu nome, mas deixar uma mensagem”, afirma. Ela diz que as raízes do movimento estão nos anos 60.
Em 1968, a famosa “é proibido proibir” já marcava os muros da capital francesa. Aqui no Brasil, “abaixo a ditadura” e afins ganhavam destaque. “No começo, as frases eram muito mais políticas. Uma característica que foi mudando com o tempo, mas ainda está presente,” fala Caru.
Nos anos 80, o artista plástico Alex Vallauri espalhou “a rainha do frango assado” pelos muros da cidade - emprestando humor ao que era quase que exclusivamente uma arte de protesto. Dez anos depois, o teor político das pichações voltou a ganhar força. Não como manifestação espontânea, mas como ‘esperteza’ partidária.
O candidato a deputado federal Carlos Adão teve seu nome espalhado pelos muros, seguido da frase: “a seleção de 70 é 10” (com a intenção de marcar o número do candidato, 7010).
Recentemente, a publicidade apropriou-se desse tipo de contravenção e de movimento urbano para divulgar filmes, discos e grifes de roupas. “O que me faz pensar que ‘o amor é importante. P...’ pode ser uma propaganda de camisinha, motel...Vai saber. Ninguém ligado a esse movimento conhece seu autor”, pondera Caru.
A reportagem foi falar com duas figuras conhecidas da tal pichação poética: Samir Mauad, 29 anos, autor de “odeie seu ódio”, e Mundano, 23 anos, responsável por frases contra o trânsito de São Paulo. “As frases nascem da necessidade de comunicar algo e tocar outras pessoas”, fala Mauad. “Tem uma coisa de autoajuda, de querer fazer outras pessoas sorrirem, refletirem e reagirem de alguma forma. O cara que faz ‘o amor é importante’ parece que está querendo me imitar”, completa.
O pichador Mundano, que prefere esconder sua identidade (“o melhor é ficar anônimo”), explica o ‘método’: “Eu não saio de casa com frases prontas, me inspiro na hora, pelo caos da cidade. Minhas frases têm um teor mais político. Falam de trânsito, violência e assuntos importantes”. Mundano também tem deixado seus escritos nas carroças de São Paulo. “Esse pessoal que empurra carroça e faz reciclagem entende minha proposta e me deixa pichar. Eu tenho marcado carroças com a provocação: “Eu reciclo. E você?”
Mundano também está intrigado com “o amor é importante. P...”. “Quase todo mundo neste meio se conhece, mas nunca ouvi falar nesse cara”, comenta.
É provável que o pichador faça como Mauad e Mundano, que marcam suas frases nos muros à noite e atentos ao movimento policial - afinal pichação é crime e pode dar cadeia (leia mais abaixo). “Sempre ando com mochila. Não dá pra prever quando a pichação pode acontecer. Eu procuro oportunidades”, diz Mauad.
É claro que nem todo mundo considera as frases pichadas uma expressão artística. “Essas frases estão sujando os muros da cidade. Não vejo nada de artístico em pichar um muro”, critica o artista plástico Rafael Zanetti, 23 anos. “Quando eu desço do ônibus e vejo um palavrão escrito, fico triste. A cidade não merece isso”, diz a empresária Andressa Lemos, 42 anos. Já a estudante Juliana Almeida, 19 anos, vê poesia na contravenção: “Acho que essas frases fazem a gente pensar, mexem com a nossa rotina. Isso é bom. Até já disse para o meu namorado que o amor é importante, p....”
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