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Vovó Neuza, a blogueira de 79 anos
Depois de adquirir o hábito de escrever, há 13 anos, passou a usar a internet para contar suas histórias de vida
FERNANDA ARANDA, fernanda.aranda@grupoestado.com.br
O papel foi pouco para abrigar o que os olhos assistiram em 79 anos. Memórias, poesias e imagens que ela registrava da metrópole chegavam a deixá-la angustiada quando não conseguia dividir com alguém. Vieram os filhos, depois os netos e a dolorida viuvez. Só então Neuza Guerreiro de Carvalho, perto de entrar para o grupo dos octogenários, encontrou o espaço ideal para contar sua experiência de paulistana nascida no Brás, crescida no Ipiranga e amadurecida na Lapa. A vovó virou blogueira e, agora, até namorado quer encontrar na internet.
“Escrever virou hábito há 13 anos. Cataloguei a minha vida, fiz oito árvores genealógicas da minha família”, diz. “Frequentei museus, fui a óperas, teatro, cinema, exposições. Me formei em 1951 em História Natural, que depois recebeu o nome de Biologia. Dei aula durante 30 anos, não parei nem depois de aposentada.”
Entre uma atividade e outra, Neuza esbarrou na internet, apresentada pelos netos. Era uma mistura de prazer e angústia, sensação que nunca havia experimentado nem quando conheceu a TV colorida, o fax ou aprendeu a dirigir. “A cultura que você adquire no Google é uma maravilha. Mas era muito angustiante. Uma overdose cultural seguida pela aflição de não aproveitar do jeito certo.”
Foi então que durante uma aula na Casa das Rosas (museu de arte e literatura da Avenida Paulista) a coordenadora educativa do espaço, Karen Kipns, sugeriu: “Por que você não faz um blog? É uma ferramenta importante para exercitar a escrita, se comunicar com o mundo, dividir experiência”.
O nome já estava na cabeça: Blog da Vovó Neuza. Pegar a “manha” dos comandos foi difícil, mas postar textos se tornou passatempo para ela. Uma legião de leitores foi sendo criada.
Por causa dos seus textos, Neuza foi convidada a ser monitora das oficinas da Casa das Rosas, para tentar reduzir as expressões de espanto toda vez que ela se apresenta como blogueira. “Por enquanto as colegas da minha idade não são como eu. Mas quem sabe no futuro...” Não foi o único emprego na era pós-blog. “Virei colunista do Topblog (serviço criado pela Universidade Paulista) só para escrever sobre São Paulo.”
Neuza só não gosta da escrita de alguns blogueiros, com abreviações e termos infantis. É adepta do português correto. “Quero até arrumar namorado na internet, mas preciso de alguém pelo menos próximo da minha idade.”
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