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O simples não é tão simples assim
Raul Drewnick
Boa parte do meu amor pela literatura eu devo a William Saroyan, autor de livros notáveis, o mais famoso dos quais, A Comédia Humana, se transformou em um inesquecível filme.
Que eu saiba, Saroyan jamais esteve no Brasil, mas foi em São Paulo que o conheci. Eu tinha 15 anos, estudava no Colégio Alfredo Pucca e compartilhava as descobertas literárias com meia dúzia de colegas. Um deles, um dia (memorável dia), me emprestou um livro de contos com um título estranho: O Jovem Audaz no Trapézio Volante.
Nada do que eu tinha lido podia ser comparado ao que estava ali. Impacto igual eu só iria ter anos depois, ao descobrir Fernando Pessoa, num livro da coleção Nossos Clássicos, da Editora Agir. Os contos de Saroyan eram tão simples que minha impressão foi a de que qualquer um - até eu - podia escrevê-los.
Até conhecer Saroyan, eu achava que a literatura era constituída por obras de autores que deixavam nos leitores a convicção de que ninguém seria capaz de escrever como eles. Ser Saroyan me pareceu possível e eu acreditei nisso.
A lição básica era: nada de epopeias, de grandiloquências, de suntuosidades. Palavras, só as do dia a dia, aquelas que um homem encontra ao ir de casa para o trabalho e que voltam com ele no fim do dia, no ônibus, sem que ele precise curvar-se para cumprimentá-las ou afastar-se para lhes dar passagem.
A segunda lição era: os heróis poderiam ser bancários, alfaiates, vendedores de roupas ou de sorvetes, e entre suas proezas aceitavam-se coisas como assobiar bem, pular do bonde em movimento (alguém aí sabe o que era um bonde?) ou pagar o aluguel em dia.
Lições tão valiosas eu não tinha encontrado em nenhum dos outros livros que continuava a ler com sofreguidão - em casa, na escola ou na Biblioteca Mário de Andrade. Nesta, se alguém me considerasse o porteiro, não estaria totalmente errado. Eu estava sempre por ali, quando as portas se abriam, e precisava ser expulso, à noite, quando chegava a hora de fechar.
A opção pela simplicidade, que eu havia aprendido com Saroyan, foi escarnecida pelos outros jovens que frequentavam a biblioteca. Eles abominavam os temas comuns e os estilos singelos. Falavam em ideal, em meta suprema, em realização integral, em perfeição, e citavam, entre os que haviam conseguido exprimir todas essas aspirações, Dante, Shakespeare, Flaubert, Joyce e mais dois ou três. Saroyan? Quase ninguém o conhecia e, se alguém o mencionava, era para lhe anexar um qualificativo desqualificativo: escritorzinho.
Eram atrevidos esses jovens cujo objetivo mínimo era promover a maior de todas as revoluções na literatura: um deles se dispunha a narrar em uma novela como havia obrigado Deus a lhe pagar dez cervejas num botequim no Largo de São Francisco; outro, menos etílico e mais atlético, prometia contar como havia vencido o Diabo numa queda-de-braço.
Diante deles, eu me sentia como um garotinho tentando reproduzir, com uma caixinha de lápis de cor, a Monalisa.
Mas não me queixava, nem dos meus botequins nem dos meus parceiros de conhaque. Não havia nenhuma divindade entre eles, nem mesmo um figurão. Só escriturários, datilógrafas, jornalistas principiantes, vendedores de bilhetes de loteria. Mas o que mais eu poderia querer, se com isso - ou com menos - Saroyan havia feito tanto?
Apostei nisso, investi nisso meus dias, minhas noites, meu suor, minhas insônias e minha esperança. No fim das contas, passados tantos anos, sobraram-me duas certezas pungentes: a de que escrever simples como William Saroyan é a mais difícil de todas as tarefas e a de que eu não consegui realizá-la.
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