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Sem medo da Academia de Letras
A centenária instituição paulista quer abrir as portas ao público. Fomos lá para tomar um chá
Gilberto Amendola, gilberto.amendola@grupoestado.com.br
Largo do Arouche, centro da cidade, o carro da reportagem deu duas voltas antes de encontrar o número certo. Não que o nosso destino fosse assim tão escondido, mas o prédio em questão é muito mais famoso por abrigar a Secretaria de Educação do Estado do que a centenária Academia Paulista de Letras.
Sozinhas, palavras como “centenário”, “academia” e “letras” já são assustadoras. Agora, quando estão juntas, provocam pânico e tremedeira. Este repórter pensou em não tocar a campainha e ir procurar escritores na Mercearia São Pedro (bar da Vila Madalena frequentado por romancistas, poetas, jornalistas e boêmios).
Enfim, a campainha. O porteiro, elegantemente trajado, avisou que já estávamos sendo esperado no terceiro andar. A primeira impressão é a de entrar em um museu pouco frequentado, um espaço vazio - com um cheiro qualquer de mofo (museu? Mofo? Preconceitos deste repórter?).
Ainda no térreo, ruínas do que um dia foi um belo auditório. A falta de dinheiro para a manutenção e as chuvas provocaram infiltrações fatais para o espaço. Um cenário triste, de puro descaso. Embora tente, a atual diretoria da Academia Paulista ainda não conseguiu sensibilizar o poder público ou a iniciativa privada para investir em uma reforma.
Peguei o elevador. Dos 16 andares, só três são ocupados pela academia, os demais foram alugados para a Secretaria de Educação - e este aluguel é a única fonte de renda da instituição. No 3ª andar, um longo corredor, quadros gigantes (com retratos de acadêmicos) e um tapete vermelho (deve dar um trabalho tremendo para limpar).
O corredor impõe respeito - de certo que as madrugadas do lugar devem ser assombradas pelos fantasmas de ex-acadêmicos ilustres, como Mário de Andrade, Monteiro Lobato, Sérgio Buarque de Holanda e muitos outros. Engraçado como o espaço dos imortais acaba provocando reflexões sobre a morte. Afinal, o regulamento da Academia Paulista de Letras prevê 40 cadeiras, 40 acadêmicos - que só podem ser substituídos depois de desencarnarem (depois de mortos, né?).
A reportagem foi recebida em um salão luxuoso, com destaque para um relicário dourado (belo e conservador). Em uma grande mesa, estava quase toda a atual diretoria da Academia Paulista de Letras: José Renato Nalini (presidente), Anna Maria Martins (secretária-geral), Antonio Penteado Mendonça (primeiro secretário), Ada Pellegrini Grinover (segunda secretária), Crodowaldo Pavan (primeiro tesoureiro) e o decano do lugar (membro mais antigo), Paulo Bomfim.
Nada como uma conversa para o medo da academia se diluir. “Nós queremos abrir a academia para o público. Não podemos mais ficar assim tão fechados. O projeto para o centenário é se abrir”, fala o presidente Nalini. A partir daí, a conversa fluiu. “O chá? O chá é uma tradição, mas não é só chá, tem café, suco... já teve até uísque”, brinca Mendonça (de verdade, as palavras ‘museu’ e ‘mofo’ não combinavam com o clima naquela sala). Além da diretoria, são membros da academia figuras como Lygia Fagundes Telles, Ruth Rocha, Ignácio de Loyola Brandão, Walcyr Carrasco e muitos outros. Antônio Ermírio de Moraes e Gabriel Chalita também são imortais - e ninguém é obrigado a concordar com isso, não é (mais um preconceito deste repórter...)?
Em companhia de Bomfim, a reportagem foi visitar a ‘joia’ da academia, uma biblioteca com aproximadamente 100 mil títulos - e muitas primeiras edições. “Vai ser fantástico quando este espaço for aberto ao público, quando o público puder frequentar e aproveitar este maravilhoso acervo”, disse Bomfim.
Por fim, entramos no local onde os acadêmicos tomam o famoso chazinho. Não experimentamos o bolo de chocolate, mas o pastelzinho de queijo estava uma obra-prima. Ninguém precisa temer nossa centenária academia.
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