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Terça-feira, 4 novembro de 2008   edições anteriores
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  Quem mandou deixar vazio?

Depois da pichação na estréia, intervenção virou moda na Bienal. Até manual sobre invasão será lançado

Gilberto Amendola, gilberto.amendola@grupoestado.com.br

Como você reagiria se as páginas do seu jornal viessem em branco, como as poucas linhas aí de cima? Iria protestar? Pedir seu dinheiro de volta? Ou aproveitar o espaço livre para escrever sua própria reportagem, desenhar casinhas etc e tal?

Bem, pelo menos o ‘vazio’ da 28ª Bienal de Artes de São Paulo tem causado um alvoroço. Desde sua abertura, no último dia 26 de outubro, o segundo andar do prédio tem sido o cenário das mais variadas intervenções. Pichadores, stickers (espécie de coladores de adesivos) e estudantes já passaram por lá. Até um manual de como invadir a Bienal será lançado em breve. Muito barulho por nada?

Essa polêmica começou no ano passado. Ainda em 2007, quando a organização da Bienal anunciou que um dos seus andares estaria completamente vazio, jovens e artistas conhecidos como stickers decidiram agir (ou reagir) ao espaço sem arte da mostra.

Organizados pelo GrupoArac, um coletivo de artistas que realiza intervenções urbanas na Cidade, os stickers entraram no prédio da Bienal dias antes da sua inauguração. Embora nenhum membro do grupo conte detalhes da invasão, sabe-se que pelo menos uma pessoa teve acesso ao local usando um jaleco parecido com o vestido pelo pessoal da limpeza do prédio.

Lá dentro, adesivos foram colados na parede e depois cobertos com papel branco - que se confundia com a própria parede da Bienal. Os adesivos foram sendo retirados com a exposição já em andamento. “Pessoas da curadoria tinham conhecimento da ‘invasão’, mas subestimaram essa possibilidade diante da ‘brigada anti-vandalismo’, até então ‘infalível’”, diz Eli Golande, coordenador do GrupoArac. A curadoria da Bienal foi procurada pela reportagem, mas não retornou as ligações até o fechamento desta edição.

O ‘sticker’ Golande tem uma opinião sobre como a curadoria da Bienal deveria agir com relação às intervenções: “Acredito que a Bienal deva se adequar à situação e disponibilizar o andar vazio para manifestações surgidas de fora pra dentro. Isso significa centralizar as ações que por ventura apresentem-se ‘radicais’ apenas no 2º andar. Tornar o andar vazio da Bienal um dos lugares mais vigiados da exposição pode, além de suscitar protestos, fazer migrar essas intervenções para outros espaços mais ‘delicados’.”

A intervenção de Golande e seu grupo virou o Manual Para Invasão da Bienal. O livro-manual poderá ser encontrado a partir da próxima semana no site. Ele trará dicas como ‘não usar roupas de mano’ ou ‘entrar com um caderno embaixo do braço.’

A intervenção dos stickers foi abafada por uma ação bem mais barulhenta. No dia da abertura da Bienal, um grupo de 40 pichadores e grafiteiros invadiu o local e deixou sua marca. Eles picharam frases do tipo “isso é arte”, “abaixa a ditadura” (sic) e “Fora Serra”. A confusão foi grande e está registrada em diversos vídeos do YouTube. Um vidro do prédio foi quebrado e dois jovens, um homem e uma mulher foram presos. O ataque foi promovido pelo grupo PiXação: Arte, Ataque, Protesto, liderado por Rafael Augustaitiz, 24 anos, conhecido como Pixobomb. “Acho um absurdo uma Bienal propor uma discussão sobre arte e reagir assim. Tem gente presa. Qual o papel da Bienal? Tem uma menina presa. É assim que se discute arte contemporânea?”, diz Pixabomb, referindo-se à prisão de Caroline Pivetta da Mota, 23 anos, que estava entre os pichadores.

Estudantes também têm interagido com o nada. Universitários reuniram-se na noite de quinta para um happening no 2º andar. Dez jovens formaram a expressão ‘Sem Idéia?’ (seguida de um desenho de uma lâmpada) com as letras pintadas nas costas. Dois estudantes saíram gritando os próprios nomes (“Hudsonnn”, “Betaaaa”). As duas ‘performances’ podem ser conferidas em vídeos no YouTube.

Golande, o representante dos stickers, é quem dá o parecer mais provocante: “Discutir o vazio em artes visuais é mais datado do que andar pra frente. Vamos andar pra frente, que é mais recente.”



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