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Um garoto do jazz chamado Sonny Rollins
Aos 78 anos, o saxofonista abre o Tim Festival com uma musicalidade revigorante
Marco Bezzi, marco.bezzi@grupoestado.com.br
Tocar jazz é uma arte das mais intrincadas. Alguns podem até falar que arranham uma passagem de Miles Davis, um fraseado de Wes Montgomery, que sabem emular as teclas atacadas pelo gênio Thelonious Monk no piano. Brincadeira de criança se comparado ao que apresentou um senhor de 78 anos anteontem no Auditório Ibirapuera. Sonny Rollins, o conhecido colosso do jazz mundial, fez das suas nas duas horas em que desfilou sua arte na abertura do Tim Festival.
Andando com dificuldade, falando com dificuldade, mas tocando como se o saxofone fosse uma extensão de sua alma, Rollins abriu sua apresentação às 21h, meia hora após o horário marcado. Trazia consigo uma banda dos sonhos: o sobrinho Clifton Anderson no trombone, o guitarrista Robert Broom Jr., o baterista Kobie Watkins e o baixista Robert Cranshaw.
O quinteto tratava de reinventar cada tema, cada passagem. Solos, virtuoses e improvisações sem fim. DNA chupado pelo rock progressivo e por guitarristas que praticaram o fusion nas décadas seguintes - criticados por boa parte da imprensa. Afinal, o improviso é a base do jazz. “O que esses brancões pensam que estão fazendo?”, diria o mais ácido.
Rollins deu partida nas teclas de seu sax com Strode Rode, música do disco Saxophone Colossus, de 1956. Quase 20 minutos de fôlego e fraseados dentro de poucos e deliciosos acordes. Assim como na abertura do show, toda canção ganhava o solo de cada instrumentista. Tempo necessário para Rollins recuperar sua energia e para testar a paciência do público.
In a Sentimental Mood, de Duke Ellington, tratou de levar o público a um local conhecido. A melodia deixou o clima delicado, sem que fosse preciso ter um conhecimento prévio de sua obra. Era possível ouvir Broom Jr. gemer, ver o fantástico e preciso baterista Watkins fazer caretas, sentir a vibração de cada batida. Talvez no show gratuito que o grupo fará no Parque do Ibirapuera, sábado, às 11h, a sensação seja de distanciamento. É preciso sentir cada nota, cada gesto. Pensando positivamente, quem sabe Rollins não apresente standards mais curtos como no final de sua apresentação? O público agradece.
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