| |
Bom Retiro, novo patrimônio cultural
Como a capoeira, Iphan pretende que o bairro seja declarado Patrimônio Imaterial brasileiro
Vitor Hugo Brandalise, vitorhugo.brandalise@grupoestado.com.br
Criado atrás do balcão de uma loja de tecidos no Bom Retiro, Centro de São Paulo, Sérgio Camasmie levou a sério o conselho do pai de “se adaptar”. Lidando com clientes japoneses, coreanos, armênios, gregos, bolivianos, israelitas - todas comunidades presentes num dos bairros mais influenciados pela imigração - ele se comunica, ao menos o suficiente, no idioma deles. Em meio a rolos de tecidos coloridos na loja da Rua Três Rios, é possível ver o comerciante, descendente de sírios, gesticular, sorrir e perguntar: “Yasui to omowanai?”
As palavras - no japonês aprendido “na raça” - têm significado óbvio. “A senhora não acha barato?”, pergunta a uma cliente japonesa que entrava na loja. “A idéia é fazer com que as pessoas aqui do bairro entrem e se sintam em casa. Ao menos o essencial de cada língua eu sei falar. Não poderia ser diferente em um lugar como o Bom Retiro”, conta Camasmie. A loja de tecidos foi fundada pelo pai em 1925. “A saudação, uma ou outra pergunta comum e, claro, os números, eu sei todos”, diz, cheio de malícia. “Senão, como vou lhes passar o preço?”
Ele é exemplo do que os técnicos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em São Paulo chamam de “multiculturalismo em situação urbana”. Julgando o Bom Retiro, com 26 mil habitantes, o maior representante dessa faceta na Capital, a Superintendência Regional do Iphan dá hoje o primeiro passo para que o bairro seja declarado Patrimônio Cultural Imaterial do País - como o samba de roda do Recôncavo Baiano, da Feira de Caruaru, do Frevo e da Capoeira, entre 14 práticas e cerimônias nacionais registradas, desde 2000, como Patrimônio Imaterial pelo Iphan.
Os imigrantes chegaram ao Bom Retiro com a instalação, em 1867, da Estrada de Ferro da São Paulo Railway (hoje Santos-Jundiaí).
“O Bom Retiro, com a variedade que tem, é a síntese do que é São Paulo. Para homenagear os imigrantes que lá se estabeleceram e dar visibilidade ao que há nele, decidimos iniciar os trabalhos para que seja declarado patrimônio imaterial”, explica a técnica do Iphan Simone Toji, coordenadora do levantamento das referências culturais do Bom Retiro. Depois de conferido o título de Patrimônio Imaterial, segundo a coordenadora, o bem tende a ganhar mais visibilidade e também a receber mais atenção das autoridades.
A comunidade recebeu bem a notícia. Descendente de italianos, o contador Paulo Frangiatto, 63 anos, nasceu na Rua Solon, “numa casa de 50 metros de fundo, para caber a filharada toda”, e mora na mesma via até hoje - a mulher, que também conheceu no bairro, é portuguesa. “A mescla cultural pode ser mantida por mais tempo com esse registro”, disse.
O projeto final deve ser concluído em seis meses e enviado ao Departamento do Patrimônio Imaterial, em Brasília. A estimativa da superintendência é que o resultado saia no início de 2010.
PERFIL
Bairro essencialmente comercial, com 1.500 estabelecimentos
Ali ficam as famosas Ruas José Paulino, Aymorés e Professor Lambroso
70% desses pontos comerciais pertencem hoje aos coreanos
Os 30% restantes são divididos entre italianos, gregos, armênios, bolivianos, japoneses e brasileiros
|