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70 crianças juradas de morte
Elas estão escondidas e sob a tutela do Programa de Proteção à Criança e ao Adolescente; algumas têm dívidas com traficantes, outras foram ameaçadas por usuários de drogas e uma parte por trabalhar em mais de uma boca
Fernanda Aranda, fernanda.aranda@grupoestado.com.br
O tráfico de drogas condenou à morte70 meninos e meninas só este ano na Capital. Os menores de idade estão sob a tutela do Programa de Proteção à Criança e ao Adolescente da Cidade e sobrevivem escondidos em pseudônimos, afastados da sociedade e impedidos de freqüentar escolas tradicionais.
Alguns estão com os dias contados por acumularem dívidas com os “donos da boca”. Outros por ameaça violenta de usuários de entorpecentes. Uma parte dos garotos iniciou a contagem regressiva por trabalhar para mais de um ponto de venda. “Traficante não tolera infidelidade. Estou com um ‘X’ na testa”, disse uma das meninas protegidas ao Juizado da Vara da Infância e Juventude de Santo Amaro, Zona Sul, ao citar que o trabalho para dois “chefões” do tráfico foi o motivo que colocou em risco seus 16 anos de vida.
Ela havia encontrado na venda de maconha e cocaína uma forma de subsistência. Tempos depois, a mesma mão que a acolheu no “mercado de trabalho” apontou a sentença de que estava marcada para morrer. Para outro garoto de 17 anos são R$ 3 mil em dívidas de cocaína que o levaram para lista negra dos criminosos.
“O serviço de proteção à criança e ao adolescente em São Paulo completa três anos em outubro. Em todo esse período, o tráfico, de forma direta ou indireta, sempre foi o motivo principal que tornou os adolescentes alvos de ameaças de morte, responsável por 95% dos casos”, afirma a secretária executiva da Comissão Municipal de Direitos Humanos, Célia Cristina Whitaker.
Não são poucos os condenados pelo tráfico. No programa, já passaram cerca de 300 pessoas, na faixa etária predominante de 14,15 e 16 anos. “Para cada menino protegido, são mais quatro da família que precisam ingressar no programa. O nosso trabalho é promover a reinserção social deles, quase sempre, em outra cidade.”
Encaminhados por conselhos tutelares ou por varas da infância, o critério de seleção dos participantes é cruel. Só entram no projeto de proteção quando o risco de morte é comprovado. “Esses meninos marcados são exemplos da lógica perversa do tráfico. Se eles são seduzidos pela proteção inicial que a figura do traficante impõe, mais tarde é esse mesmo personagem que os ameaça quando as leis do crime não são respeitadas”, lamenta o juiz da infância de Santo Amaro, Iasin Ahmed, um dos coordenadores do programa.
Se a ameaça de morte priva os menores de liberdade, também é o tráfico que afasta os adolescentes de um outro tipo de convívio social. No ranking de causas para a internação na Fundação Casa (antiga Febem) a venda de drogas ganhou força, sendo o crime cometido por três em cada dez infratores (31% do total). Há dois anos, segundo as estatísticas das unidades, o comércio ilícito correspondia a 14% dos casos.
A relação entre drogas e criminalidade juvenil foi levantada por uma pesquisa realizada pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, recém-divulgada. Foram avaliados 150 meninos da unidade da Fundação Casa de Ribeirão Preto (Interior paulista). Do total, 96,7%, disseram ter experimentado maconha e 65,3% cocaína.
“A experimentação da droga, no geral, é aos 12 anos. E sempre antecede a entrada deles na vida criminal, aos 14 de idade”, afirma a autora do trabalho, a psicóloga Mayra Martins. “Eles não entram no crime para sustentar o vício. A principal motivação relatada é o consumo, o tênis de marca. O uso de droga é um coadjuvante, mas presente na rotina desses jovens.”
VÍTIMAS 446 JOVENS entre 15 e 24 anos foram assassinados ano passado na Capital. Em 2006, as vítimas dessa idade somaram 632 casos
MAPA DA VIOLÊNCIA 31,4% FOI O AUMENTO de jovens vítimas de homicídio no País, entre 1996 e 2006, segundo o Mapa da Violência divulgado este ano. A população dessa faixa etária cresceu 20%
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