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Segunda-feira, 17 março de 2008   edições anteriores
VARIEDADES
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  'Lutei para me impor. Testei o grau de tolerância das pessoas'

Marcelo Arantes, 31 anos, usou com a repórter a mesma técnica empregada com alguns participantes do Big Brother Brasil 8, programa que deixou na semana passada: ele contou os minutos da conversa. Foram 30, mas cronometrados. Menos arrogante, mostra-se à vontade com a fama recém-adquirida. Sua auto-estima, assumidamente alta, sugere que o psiquiatra não aceita ser apenas mais um ex-BBB no meio de tantos outros. Quer seguir a carreira médica e ainda pretende se arriscar como escritor e novelista - caminho parecido com o de Jean Wyllys, ex-Big Brother 5, que assim como Marcelo revelou ser gay em rede nacional. O médico quer mais: rechaça a comparação com Jean e até com Gilberto Braga.

Ultimamente, a edição do 'BBB' mostrava mais você que os demais participantes. Há favorecidos?

Se pensaram que isso me favorecia foi um equívoco, ou eu não estaria aqui fora agora. Como era um cara transparente, imagino que era mais interessante me mostrar que aos outros, que estavam fingindo.

Você acha que a Globo escolhe tipos para o programa e que entrou para causar polêmica (por ser gay e discutir com os outros 'brothers')?

Quando fiz a ficha e mandei a foto tive medo de só escolherem os rostinhos bonitos. Eu me acho bonito, mas não sou padrão e achei que tinha poucas chances. Fui convidado e na entrevista tivemos um papo descontraidíssimo, muito bom, e acho que por isso me chamaram. Não acho que estavam prevendo que eu poderia dar essa repercussão. Com relação a falar verdades, disse que tinha vontade de fazer as pessoas pensarem. Talvez tenha sido isso. E agora tenho essa cruz, que está pesada, mas boa de carregar. (risos)

Confesse: foi estratégia dizer que estava apaixonado pela participante Gyselle Soares?

Não foi estratégia. Eu queria uma pessoa para ficar perto até o final. Ela estava meio isolada no começo e nos aproximamos, eu a achava uma pessoa forte. Com o tempo, você fica preso ali e não tem como liberar sua libido e se apaixona, gente! (risos) Síndrome do confinamento? Isso é verdade! E ela ali, muito sedutora, encantadora, sabe lidar com as câmeras, já participou de um reality show na França (L'Žle de La Tentation), no qual precisava separar um casal para ganhar.

Como sabia do programa francês?

(pigarreia) Ela me contou ali dentro com outras palavras.

E captou sem saber de nada antes?

Isso.

No 'BBB', você disse que queria sentar-se em um bar com Pedro Bial. Que 'verdades' diria a ele?

Adoro Bial, ele era o 15° elemento da casa. Era a única pessoa que fazia os outros pensarem ali além de mim, que falava umas verdades. A sorte é que temos ele ali agora porque se ele não fizer perguntas aquele povo vai ficar brincando ali mais duas, três semanas. Tenho dúvidas sobre a figura dele como apresentador. Queria saber se tinha preferido, se achava as pessoas infantis...

Fora do confinamento, não quer comentar a orientação sexual dos outros porque podem processá-lo. Já pensava assim?

As pessoas se cuidam muito em diálogos, em brincadeiras. Mas percebia nos olhares, pela falsa ingenuidade que, talvez, a pessoa tinha uma coisa artificial, sabe? Era como se as pessoas estivessem em um programa infantil, aí eu fazia o seguinte: vamos tentar tirar. Você percebe pelos trejeitos, por alguns gostos, algumas aptidões e vai juntando uma coisa com outra. E aprende a ver a pessoa como ela é e não quer se mostrar. Venha, se exponha. Você é o quê? A pessoa vai a um reality, que seja transparente! (risos) Eu, por exemplo. Muitas pessoas, inclusive colegas psiquiatras, vão querer me julgar: é um psiquiatra que não se define. Quis brincar com isso e acho que consegui, as pessoas estão falando, né?

Que quer dizer com 'não se define'?

Hetero(sexual), homo ou bi? Eu sou bi! Tenho isso claro, mas tenho que falar um rótulo? Não estava claro? Mas isso fiz por quê? Para que a questão da sexualidade ficasse em segundo plano. Tinha outras coisas ali interessantes para serem discutidas, mais que simplesmente minha homossexualidade. Testei o grau de tolerância das pessoas.

Ciente de que o tema prenderia a atenção dos espectadores, certo?

Isso foi assim: vamos falar agora, porque vem coisa muito mais interessante. Tinha um medo enorme de ser comparado com Jean Wyllys porque jamais quis me beneficiar com minha condição. Claro que Jean veio, fez muita coisa, e que sofreu preconceito lá dentro. Eu queria que, se fosse para sofrer preconceito, que fosse por outra coisa e não por ter essa sexualidade diversa. Queria algo mais. E infelizmente até Jean me criticou. (risos)Respeito o Jean, acho que ele tem um belo espaço, mas agora eu é que estou construindo esse espaço, com minha sexualidade em segundo plano. Não vem ao caso querer saber como transo, com quem...

Jean disse ser diferente de você porque as pessoas gostavam dele pelas atitudes e não por ser gay.

O Jean... não quero entrar em atrito com ele, né?

Nem eu quero que você entre!

Ah, obrigado. Acho que nós dois juntos podemos contribuir muito com o movimento (gay), embora nunca tenha levantado bandeira na vida que não fosse minha própria bandeira. Sempre lutei para me impor, para me aceitarem com meu temperamento, como sou. E ele fez da sexualidade uma arma bem forte. O movimento gay, os sites para votar no Jean e tal... Eu não quis isso. Gay, hetero, seja o que for, votem no Marcelo.

Mas, como ele, você também quer escrever, ser autor de novela...

Com certeza, temos muitas semelhantes, acredito eu. Assim como temos diferenças. Foi cogitada essa questão de ser autor de novela. Tenho coisas escritas, nada impresso ainda, ficção, não-ficção. E parece que as pessoas gostaram do que eu escrevo (no blog do BBB), o que para mim foi surpreendente. Claro que virá um livro em breve, ficção. Quem sabe novela, um pouco mais para frente. Agora não daria tempo.

Quer ser o novo Gilberto Braga?

Vejo Gilberto (Braga), Aguinaldo (Silva), Glória (Perez), mas nenhum deles seria o que posso ser. Sou diferente, então quero buscar algo novo. Se vier como roteirista, não vai ser Gilberto ou Aguinaldo. Todos foram importantes para mim, mas vai ser Marcelo, com suas próprias influências. Tenho autores preferidos e as pessoas perguntam se o texto vai ser parecido com o de Gilberto. Eu digo: 'não'. Vai ter influência, sim, porque é um grande nome, mas será um texto de Marcelo. É uma coisa nova, gente!

A novela está em crise de audiência porque precisa inovar?

(pausa) Tinha muito receio desse programa (Big Brother) não vingar porque as pessoas estavam usando fórmulas antigas. Aí vi isso e pensei: alguma coisa tem de mudar. E comecei a falar aquelas verdades.

Então trabalhou a favor da Globo, para dar audiência para a emissora?

A favor da minha proposta, de entrar e fazer alguma coisa diferente de qualquer outro BBB. Como sou fã, vi todos os outros programas e, às vezes, tinha vontade de entrar na tela e dizer as verdades. (risos) Agora, pude fazer o que sempre quis.

E sente a alma lavada...

(risos) Ah, foi ótimo. Mas as pessoas se projetam nos seus heróis e reclamam das coisas que falei. Que venham, que venham, que venham!

Sua auto-estima parece muito alta.

Super! (risos) Tem de ser, uai! Fazem foto comigo, me buscam na rua, me abraçam, é o máximo!

Acha que nasceu para ser famoso?

Será? (risos) A fama é perigosa porque estou famoso, não sou famoso. Vamos ver até onde isso vai.

Há quem ache que você não conseguirá ter pacientes depois do programa, mas você já falou que não acredita nisso, está confiante. Qual será seu slogan para atraí-los?

Não pensei no meu slogan ainda. (risos) Mas minha estratégia de marketing sabe qual é? O paciente. Se conseguir um paciente, tenho certeza de que consigo mais. Vou abrir um consultório em dois meses, não sei ainda se no Rio ou em São Paulo.



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