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Inconvenientes com muito estilo
Band aposta no jornalismo-comédia
ANDREZZA CAPANEMA, andrezza.capanema@grupoestado.com.br
Atenção, cuidado com o que você diz. Ou melhor, com o que os homens de preto vão perguntar. Custe o que Custar (CQC), da Band, estréia hoje, às 22h15, e promete bombardear os entrevistados com aquilo que muita gente quer saber mas nem todo mundo tem coragem de perguntar. Vai sobrar saia-justa para o presidente da República, jogador de futebol, cantor...
O programa mistura informação e entretenimento. É a versão brasileira de Caiga Quien Caiga, criado em 1995 pela produtora argentina Eyeworks-Cuatro Cabezas e exibido pela Telefe. O formato coleciona sete indicações ao International Emmy Awards e chegou a países como Chile, Uruguai, Espanha, Itália, França e Israel. O elenco usa terno preto e óculos escuros em homenagem à musa inspiradora, a mosca - inseto inconveniente que não precisa de convite para entrar.
Os apresentadores Marcelo Tas, Marco Luque e Rafinha Bastos ficam na bancada para comentar os principais assuntos do noticiário nacional e internacional com tom crítico e ácido. Os repórteres Danilo Gentili, Rafael Cortez, Oscar Filho e Felipe Andreoli vão às ruas atrás de informações.
O formato do CQC lembra aquele adotado pelo Pânico na TV, da Rede TV!, e remete ao que o Casseta & Planeta Urgente, da TV Globo, fazia quando estreou no vídeo, em 1992. Os comunicadores/comediantes, contudo, rejeitam comparações. 'O CQC é um jornalístico com humor que faz o balanço da semana. É uma revista semanal que aborda diversos assuntos, que pretende fazer a cobertura bem-humorada de eventos e inaugurações. Quem inventou, não sabe que o Pânico existe. O visual, com o terno, é parecido, mas um programa não tem nada a ver com o outro. A gente vai entrevistar o (governador José) Serra para perguntar sobre política e não para beijar a careca dele. Fazer isso é muito pouco', diz Bastos.
Tas, assim como o colega, também tem o discurso afinado. 'Eu vejo o CQC como algo original, mas é claro que existe a tentação de colocar o programa em uma das caixinhas já conhecidas, como Pânico, Borat (personagem de Sacha Baron Cohen), (o cineasta) Michael Moore. Mas logo o telespectador vai deixar isso de lado.'
As 'vítimas' preferidas da trupe são as personalidades. Em cerca de 12 anos de existência, o original argentino cruzou o caminho de gente como o papa Bento XVI, o roqueiro Bono Vox e bateu bola - literalmente, em um estádio - com o craque brasileiro do Barcelona Ronaldinho Gaúcho. O CQC daqui mostra reportagem com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e um bate-papo com o jogador Robinho gravado em Madri, na estréia.
Ousado demais
Tas conta que surpreendeu-se quando a emissora decidiu investir no programa. 'Eu fiquei passado quando a Band disse que queria fazer. É ousado demais para a televisão aberta, uma mistura arriscada. Falar dos fatos com deboche, imitação ou paródia não seria novidade, mas fazer jornalismo de verdade com humor é ousado', diz. ' O programa vai surpreender. As pessoas vão pensar 'será que pode falar com o presidente assim?', 'pode falar com um jogador de futebol assim?'. A gente fala de maneira direta, mas não desrespeitosa. Mostra que o cara é de carne e osso, que pode ser pego de calça curta e ri r da situação', completa.
A Band buscou jornalistas e atores 'quase famosos' para integrar o time. O gaúcho Rafinha Bastos, por exemplo, é jornalista e ator. Trabalhou como repórter na RBS, na Cultura e na extinta Rede Manchete. Ele desembarcou em São Paulo em 2002 e, desde então, aposta no teatro. O comediante Marco Luque foi garimpado na Terça Insana, sucesso no circuito humorístico da noite paulistana. 'Está na hora de renovar, descobrir talentos. Chega de reciclar, pegar de outras emissoras', diz Elisabetta Zenatti, diretora artística e de programação da Band.
Na turma dos homens de preto Tas é a única celebridade. O ator ganhou fama na década de 80 com o personagem Ernesto Varela, repórter fictício da TV Cultura. Ele atormentava políticos e celebridades à moda CQC antes mesmo de o humorístico surgir. 'Eu conheci o CQC há 10 anos quando fui convidado para uma palestra na Argentina. Um dos produtores conhecia o Varela, acompanhei a trajetória deles', lembra.
Passadas duas décadas desde o sucesso de Varela, Tas comenta as semelhanças entre ele e seu novo personagem na Band. 'Varela e CQC são parecidos no sentido de perguntar. A nossa arma é a palavra, como a dele também era. A identificação é essa. Varela completa 25 anos esse ano e me fiz a pergunta 'será que lanço um livro, um DVD?', mas vou comemorar com o programa. Nada melhor do uma comemoração que olha para a frente e não para trás.'
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