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Segunda-feira, 17 março de 2008   edições anteriores
OPINIÃO
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  Funk na periferia: álibis para o crime

Todos os sábados, de madrugada, uma turma de pré-adolescentes e adolescentes carentes do bairro do Parque Primavera, na Zona Sul de São Paulo, se reúne em dois quarteirões nas Ruas das Orquídeas e Bento José Borba, em torno de um carro de som potente, para um pancadão, gíria que define um baile funk na periferia.

De acordo com líderes comunitários do bairro, a festa é patrocinada pelos traficantes de drogas que dominam favelas das redondezas: eles utilizam tais encontros para ganhar dinheiro vendendo maconha e cocaína a cerca de 3 mil jovens e crianças que lá vão para se divertir e cobrando 'pedágio' de dezenas de camelôs - cada um deles paga de R$ 15 a R$ 20 para ser autorizado a vender bebidas alcoólicas ilícitas a este público.

O baile ocorre às portas da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emei) Isabel Vieira Ferreira, cujo pátio recebeu a sugestiva denominação de transódromo, pelo fato de ali se poder fazer sexo livre e gratuitamente.

A violação da Lei do Silêncio, o tráfico de drogas a céu aberto, a venda de álcool a menores de idade e os atentados ao pudor não mobilizam as autoridades que deveriam evitar a prática sucessiva de tantos delitos, sem falar no desrespeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O delegado do 98º Distrito Policial (DP), Valter Bassoli Carvalho, se diz de mãos atadas para agir, porque não consegue encontrar os organizadores da festa e, assim, abrir um inquérito por perturbação do sossego, nem dispõe de pessoal para reprimir, a seu ver um problema da alçada da Polícia Militar (PM). O major Delfranio Barbosa de Carvalho, do 22º Batalhão, disse que seu efetivo não pode reprimir o pancadão, porque é convocado para realizar operações mais importantes, tais como captura de procurados pela Justiça, apreensão de armas ilegais, fechamento de estabelecimentos sem alvará e outros bailes funks, que também perturbam a paz da população.

A Subprefeitura de Cidade Ademar considera sua competência repressiva limitada à fiscalização dos camelôs escorchados pelos traficantes.

E o diretor da escola, Marcos Antonio Gonçalves Gabriel, disse não ter conhecimento da festa porque ela ocorre após o fim das aulas e que ele vai embora. Alegou ainda que a escola fica aberta fora do período de aulas para a comunidade usar suas quadras esportivas e não vê o que pode fazer para evitar o uso de seu pátio para o sexo ao relento da criançada: 'Isso é um problema maior, social, que foge da escola.'

Esse jogo de empurra das autoridades é legitimado por acadêmicos como a especialista em comportamento Suely Gevartz, professora do Instituto Sedes Sapientiae, para quem esse tipo de festa 'dá voz aos seres acuados'.

Essa omissão e tais justificativas politicamente corretas não levam em conta a saúde física e mental ou a formação das crianças e adolescentes que freqüentam as festas, nem a paz a que os vizinhos do local onde ela se realiza têm direito. Além de dar álibis para o crime.



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