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Segunda-feira, 17 março de 2008   edições anteriores
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  Basta fazer o simples

De acordo com o economista e mestre em educação, os baixos resultados dos alunos das escolas públicas do Estado de
São Paulo não chegam a surpreender, mas, para ele, educação é um problema que se apresenta em todo o País

Para o economista e mestre em educação Claudio de Moura Castro, o problema da educação paulista, e também da brasileira, é que tem muita gente deixando de fazer o arroz com feijão. 'É preciso olhar para os municípios que já fazem o dever de casa', diz. Sobre o Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp), divulgado na semana passada, ele diz não se surpreender com os baixos desempenhos dos alunos, mas esperava que o Estado apresentasse resultados bem melhores.

Se o senhor fosse pai e soubesse dos péssimos resultados do Saresp, o que faria?

Se fosse um pai informado, ficaria surpreso, porém zangado. E São Paulo ainda é dos Estados que tem a melhor educação. Os outros estão piores. A única novidade é o descompasso entre matemática e português. O resultado de São Paulo é decepcionante.

E o que explicaria esse descompasso entre matemática e português?

Talvez porque houve um esforço para melhorar o português e não a matemática. Os resultados ruins das avaliações vêm se acumulando. Agora, por exemplo, se sabe que sete em cada dez alunos que concluem o ensino médio não sabem converter metros em centímetros.

Ao longo dos últimos anos, o Estado formou uma geração perdida?

Não se pode dizer que foi perdida. Essa gente vai se arrastando, aprendendo e melhorando ao longo da vida. Agora uma grande oportunidade foi perdida. Mas não vamos particularizar São Paulo. O que há de imperdoável é o Estado de São Paulo não ser muito melhor.

Mas não seria de se esperar que também a cidade mais rica do Brasil oferecesse um bom ensino?

Vemos hoje uma situação genérica de escolas de periferia que são praças de guerra. Não é política de educação, é de pacificação. Nas grandes cidades brasileiras, elas puxam as avaliações para baixo de forma dramática. A melhor capital é Curitiba, mas existem 440 municípios com educação melhor que ela. É uma deficiência global, das periferias brasileiras, que estão puxando tudo para baixo: mortalidade, criminalidade, educação e saúde. Eu diria que esse é o problema mais inadministrável do Brasil.

Quem mora na periferia não tem outra alternativa a não ser mandar seus filhos para a escola pública. Parte do problema e da solução não estão na educação. Não se pode querer que numa praça de guerra a escola seja uma ilha de paz. O pai realmente tem de ter uma grande zanga, um desapontamento de ver que as escolas de periferia são uma porcaria. O ensino médio hoje tem sérios problemas, como distorção de idade e série, repetência e evasão. Isso reflete na educação. Quando você fala do ensino fundamental, ele é muito ruim, mas sabemos como deveria ser. A idéia está certa, só que não sabemos fazer direito. Quando pega o ensino médio, a idéia não está certa. Não adianta querer fazer certo uma receita que está errada. Basicamente, temos uma colcha de retalhos, uma montanha de informações que o jovem vai ter de aprender, mas a gente sabe que só os bons alunos das melhores escolas privadas dão conta. Quanto mais se tenta ensinar, menos o aluno aprende. Todos os países do mundo têm muitas alternativas para um aluno no ensino médio.

São Paulo é governado pelo PSDB nos últimos 13 anos. Como deve ser avaliada a política de educação dos tucanos?

Não foi suficientemente mágica para superar uma crise e uma queda históricas, que veio antes do governo (de Mário) Covas. O grande afundamento da educação foi anterior a ele. O PSDB não foi capaz de energicamente reverter isso.

E há ainda a disputa política entre PSDB e PT, que em São Paulo respinga em qualquer discussão sobre o ensino.

Com certeza. O governo do Fernando Henrique Cardoso foi refém de um bloqueio do qual hoje o PT sente a falta. O PT (quando era oposição) foi burro, porque se tivesse permitido uma série de reformas, o FHC teria pago o preço político das mudanças. Ao vetar as reformas, o PT herdou os problemas. Há uma dimensão de um botar a casca de banana no outro. E há problemas da própria educação que não foram resolvidos. A falta de governabilidade (nas escolas), o pouco que as autoridades mandam, isso não é PT, nem PSDB, é histórico.

Vamos discutir três políticas públicas que tiveram dificuldades de implementação em São Paulo. A primeira: a municipalização.

Não é algo que possa explicar o que está acontecendo. Quando você olha o ensino estadual ou municipal, uma hora um é melhor e o outro pior. Há um princípio razoável de que faz sentido que as escolas iniciais sejam municipais e a de ensino médio, estaduais. Caminhar nisso é uma boa idéia.

E a progressão continuada adotada em São Paulo?

O Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), que combina o quanto o menino aprendeu e quanto andou no sistema, indica que São Paulo foi muito bem. De uma forma quase direta, mostra que a promoção automática ajudou. Mas daí a dizer que o que existe hoje é bom, não. A promoção automática sem fazer mais nada é simplesmente menos ruim que a reprovação em massa. Só que a solução não é nem uma, nem outra. A solução está em fazer com que os meninos aprendam.

Os sindicatos dizem que o problema número 1 são os salários.

Não há nenhuma relação. Alguns estados pagam muito e tem educação boa, outros têm ruim. Há estados que pagam pouco e tem educação boa, como é o caso de Minas Gerais. São Paulo paga razoavelmente e não está tão mal assim. A verdade é que o professor está muito mais preocupado com a qualidade de vida, com as condições de trabalho e a falta de ambiente. Professores que sejam razoáveis, porque há uma legislação que permite a eles faltarem e não acontece nada. É uma legislação trágica. Os secretários e diretores não podem fazer nada. Estão reféns de um sindicato obscurantista.

Os pais erram ao enviar seus filhos às escolas e achar que elas vão ser responsáveis por tudo, inclusive ensinar a criança a amarrar um cadarço de tênis?

O pai tem que cobrar a escola a ensinar seu filho a ler, escrever e fazer conta. Se começar a exigir que ensine a amarrar sapatos, a escola vai fazer isso e deixar de lado o mais difícil.

Como a sociedade poderia participar mais desse processo?

Antes o pai dizia que a escola era ruim e o diretor dizia que era boa. Hoje tem o Prova Brasil. Se o pai leva o jornal com o resultado do exame, a coisa é diferente. Você está instrumentalizando a família a cobrar. Não adianta achar que vamos puxar a espada, dizer 'Independência ou Morte' e agora vai.

Ou seja, não basta só noticiarmos que São Paulo foi mal no Saresp, como fez a imprensa?

Esse é um ponto importante, porque você vai ver alguns municípios muito acima da média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Esse povo enfiado em Cardoso, que não sei onde fica, teve 245 pontos. Tupã também. Dolcinópolis, General Salgado, Pontes Gestal. Se estão acima da média, o que estão fazendo? Não é mágica, é o feijão com arroz direitinho. Não é possível que os outros também não possam fazer.



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