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Por que SP virou a cidade dos congestionamentos
A cada nova administração novas idéias são lançadas, mas não há continuidade. Em 40 anos, oito planos para o transporte público foram anunciados pela Prefeitura. Até hoje é difícil saber qual deles é o melhor, porque nenhum foi implantado até o fim
Naiana Oscar
No final da década de 60 já se falava de um colapso no trânsito de São Paulo. Desde então, ao menos oito planos de transporte público foram anunciados pela Prefeitura. Até hoje é difícil saber qual é o melhor, pois nenhum foi implantado até o fim.
A falta de continuidade, em grande parte por questões políticas, fez de São Paulo a cidade dos congestionamentos. Os planos arquivados se tornaram a fila da 23 de Maio, lentidão nas Marginais, ônibus que não chegam no horário, Metrô lotado.
“O problema da descontinuidade é trágico em São Paulo”, diz o consultor de trânsito Adriano Branco. A urbanista Silvana Zioni aponta a quase inexistência de ações integradas entre Estado e município e de iniciativas que contemplem a região metropolitana. “Se os projetos fossem levados a sério, o trânsito hoje seria melhor”, afirma Zioni.
É o Metrô que inicia os grandes projetos para transporte na Capital. A companhia foi criada no mesmo ano em que os bondes, precursores do transporte coletivo paulistano, foram extintos. Era 1968, mas podia ter sido mais cedo. Quatro décadas antes, a empresa de energia Light já havia planejado um sistema de Metrô para a Cidade, recusado pelo Município. Quando as linhas começaram a ser construídas, os técnicos projetavam uma rede de 140 km em 10 anos. Em 2008, temos 60,2 km - 43% da meta inicial.
O Metrô começou a operar em 1974 com ociosidade de 75%. Para resolver o problema, no ano seguinte o prefeito Olavo Setúbal anunciou o Plano Integrado de Transporte, para aproximar o Metrô de outros meios, como ônibus e trem.
A mesma administração criou o Sistema de Transporte Urbano de Passageiros da Região Metropolitana de São Paulo (Sitrans). A meta era construir 33 linhas de trólebus, com veículos articulados e terminais de integração. Das cinco etapas previstas só duas foram concluídas. O mesmo projeto criava a Empresa Metropolitana de Transporte Urbano (EMTU), holding que controlaria os sistemas de ônibus, Metrô e trens. A gestão seguinte desmanchou o recém-criado sistema que abrangia a região metropolitana. Nos anos 70, São Paulo tinha 6 milhões de habitantes e a frota de 965 mil veículos.
No governo Mário Covas dois planos foram iniciados. O projeto de 1983 previa a expansão do trólebus - há 5 anos as linhas começaram a ser desativadas. Em 1985, Covas tentou expandir os corredores exclusivos e criar 28 terminais de integração. Só o corredor da Paes de Barros e o da 9 de Julho foram concluídos.
Jânio Quadros, como o antecessor Paulo Maluf (1969-1971), priorizaram a rede viária, construindo o Minhocão, túneis e avenidas. “Pouco se fez pelo transporte público”, disse Branco. “Tinha-se, como ainda se tem, a idéia de que ampliar o viário resolveria o problema, quando só privilegia o automóvel.”
Com a municipalização do sistema, em 1991, Luiza Erundina passou a controlar a receita das empresas de ônibus. Na gestão seguinte, Maluf optou pela privatização. Dos corredores previstos por Erundina, só o de Vila Nova Cachoeirinha saiu.
Um plano elaborado em 1999 tinha metas de longo prazo para 2020. Até essa data a Cidade deveria ter 284 km de Metrô, duas linhas de trem ligando os aeroportos, pedágio urbano e estacionamentos subterrâneos. Tudo custaria R$ 30 bilhões. O valor foi considerado alto demais e o plano está parado.
O último grande projeto, de Marta Suplicy, foi o Sistema Interligado. Entre 2001 e 2004, foram construídos 10 terminais, que se somaram a 14 existentes. Outros 20 seriam concluídos até 2008, quando a Cidade teria 325 km de corredores exclusivos. Hoje, são 111 km. Um dos méritos do sistema, mantido mesmo com a mudança da gestão, foi a criação do bilhete único em 2006.
A Secretaria Municipal de Transportes não informou se há um plano de transporte público nesta gestão. Os especialistas estão certos de que não há. “Sem planejamento, o jeito é esperar a calamidade” , diz Eric Ferreira, coordenador do Instituto de Energia e Meio Ambiente.
PROJETOS ENGAVETADOS
1968 O início do Metrô Prefeito: José Vicente Faria Lima Logo que foi criada, a Companhia do Metropolitano de São Paulo planejou uma rede de 140 km, para ser concluída em 10 anos. Passadas 4 décadas, temos 60,2 km.
1975 Plano Integrado de Transporte (PIT) Prefeito: Olavo Egídio Setúbal O projeto prevê a integração física, operacional e tarifária das linhas do Metrô com os outros meios. Até hoje a integração não é total.
1977 Sistran Prefeito: Olavo Setúbal O Sistran previa a criação de 33 linhas de trólebus, com a construção de terminais de integração. A implantação ocorreria em 5 etapas até 1985. Só duas linhas saíram do papel até 1982.
1983 Programa de Ação Imediata (PAI) Prefeito: Mario Covas O plano previa a criação de corredores exclusivos para trólebus. Em 1985, foi substituído por outro projeto. Em 2003, os trólebus começaram a ser desativados.
1985 Plano Municipal de Transporte Prefeito: Mário Covas A meta era implantar 23 faixas exclusivas para ônibus e 28 terminais de integração. Só o da Avenida Nove de Julho e o da Paes de Barros foram concluídos.
1991 Municipalização Prefeita: Luiza Erundina Além de municipalizar o transporte coletivo, a prefeitura pretendia reescalonar horários de atividades urbanas e criar faixas exclusivas. Na gestão seguinte, o sistema foi privatizado.
1999 PITU Prefeito: Celso Pitta O Pitu estabeleceu que até 2020 a Cidade deveria ter 284 km de Metrô, linhas de trem ligando os aeroportos, pedágio urbano e estacionamentos subterrâneos. O plano foi arquivado.
2001 Interligado Prefeita: Marta Suplicy Até 2004, 10 terminais foram implantados. Outros 20 deveriam ser concluídos até 2008. A previsão era de que até essa data a Cidade tivesse também 325 km de corredores. Hoje são 111 km.
EVOLUÇÃO DO TRANSPORTE PÚBLICO EM SÃO PAULO
1880 - É construída a linha de bondes com início na rua da Liberdade, ligando a Capital à Vila de Santo Amaro.
1900 - A Light inaugura o sistema de bondes elétricos em São Paulo.
1906 - Prefeitura autoriza o serviço de carros de aluguel.
1925 - São criadas linhas de ônibus circulares com veículos importados da Europa.
1926 - A Light importa 50 ônibus Yellow Coach que circulam até 1932. A empresa apresenta um plano de integração dos transportes urbanos, incluindo um sistema metroviário. O plano não é aceito pela Prefeitura.
1946 - A administração municipal assume o controle dos transportes públicos na Capital, com a criação da Companhia Municipal de Transportes Coletivos.
1946 - A administração municipal assume o controle dos transportes públicos na Capital, com a criação da Companhia Municipal de Transportes Coletivos.
1949 - A CMTC implanta o sistema de trólebus com 30 veículos importados dos EUA e Inglaterra.
1958 - Começam a ser fabricados os primeiros trólebus brasileiros.
1968 - Desativação do sistema de bondes.
1974 - Início da operação comercial da Linha 1-Azul, no trecho Jabaquara - Vila Mariana.
1983 - Tem início a integração ônibus-ferrovia.
1991 - Entra em vigor a Lei da Municipalização. A CMTC controla a receita do sistema de ônibus.
1994 - O Sistema de Transporte Coletivo por Ônibus passa a ser operado por 47 empresas privadas.
1993 - Começa a primeira fase de privatização da CMTC.
1995 - É criada a Sptrans.
2006 - Implantada a integração do Bilhete Único com o sistema metroferroviário.
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