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Entrevista: 'Trânsito é mais fácil que o ser humano'
Ion de Freitas, engenheiro
Quando o engenheiro Ion de Freitas começou a trabalhar na área de trânsito, na década de 40, 'três carros em fila só podiam ser duas coisas: ou enterro ou casamento'.
São Paulo ainda não conhecia os congestionamentos, só ricos tinham carros e bondes eram meios de transporte. Freitas criou a disciplina de Engenharia de Tráfego na Escola Politécnica da USP, trabalhou na CET, na Dersa, em Brasília... Em 1997, aos 74 anos e 'meio decepcionado' com o trânsito da Cidade, resolveu mudar de profissão e foi cursar Psicologia. Hoje, com 85 anos, garante que é mais difícil conhecer o ser humano que desatar o nó do trânsito de São Paulo.
Como o poder público planejava o trânsito da Cidade nos anos 40?
Naquela época, um carro gritava aqui e outro respondia ali. Havia bondes na rua e mais nada. E o Estado tinha apenas 46 quilômetros de vias pavimentadas. Quando se fazia estrada só se pensava na geometria, não havia noção de capacidade, de nível de serviço. Uma rua terminava e outra continuava, sem nenhuma visão.
No Brasil, quando isso começou a mudar?
Em 1962 fizemos o primeiro estudo de plano rodoviário para São Paulo. No Estado, as noções de engenharia começaram cedo. Mas na Cidade o empirismo continuou.
O senhor viu muitos projetos serem anunciados sem sair do papel?
Ah, sim, muitos. No início da década de 70, por exemplo, participei do governo Figueiredo Ferraz. Criamos o plano de vias expressas urbanas, com 100 km ligando todas as principais artérias da Cidade. Quando terminou a gestão passaram uma borracha em tudo. Foi esquecido, nunca mais se falou nisso, nem sei onde está. Ninguém gosta de colocar a azeitona no pastel do outro. Todo mundo quer levar o nome e cortar a fita de inauguração.
O senhor esperava mais do Metrô?
Achei que ele fosse continuar crescendo. É uma obra maravilhosa, mas ficou parada no tempo. Tem o pecado de ser caro e demorado, coisa que político não gosta.
O que passa pela sua cabeça quando vê o caos que se tornou o trânsito de São Paulo?
Dá um pouco de tristeza em pensar que alguma coisa já podia ter sido feita. A falha maior está na estrutura do viário. Rodízio e pedágio urbano são só paliativos. Temos que aperfeiçoar o controle do sistema viário existente e ampliá-lo.
O senhor está mais feliz como psicólogo?
Fazer ponte é fácil, fazer estrada também. O difícil é entender o ser humano.
É possível, com psicologia, melhorar o trânsito de São Paulo?
A cortesia abre caminhos. Com paciência e respeito tudo flui.
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