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Gatão de meia idade
O Borba Gato da Av. Santo Amaro é só uma das criações de Júlio Guerra, que ganha mostra até dezembro
Georgia Nicolau, georgia.nicolau@grupoestado.com.br
Ele já usou a camisa do Corinthians, colaborou para a campanha das Diretas Já, entrou na concorrência para ser uma das sete maravilhas do mundo e, veja só, ganhou votos em mais de 51 países. Playmobil gigante, bonecão, feioso e brega são alguns dos adjetivos utilizados para caracterizá-lo. Assim é o Borba Gato, guardião da zona sul, o gigante da Av. Santo Amaro, um dos mais polêmico monumentos públicos da Cidade.
Seu criador , o artista paulistano Júlio Guerra, ganha uma exposição no Sesc Santo Amaro, em cartaz até dezembro, que aborda sua obra no campo da escultura, pintura e literatura. O bairro onde a mostra acontece não é coincidência: Santo Amaro é o elo que une Júlio Guerra e o bandeirante imortalizado pela sua mais famosa obra. Ambos são santamarenses nativos. “O Júlio Guerra nasceu em Santo Amaro quando o bairro ainda era uma cidade independente, tinha uma identidade muito mais forte. Ele identificou Borba Gato como seu antepassado e quis homenageá-lo”, conta o curador da exposição, o especialista em museologia Gilberto Habib.
Revestida de pedras coloridas cortadas e polidas manualmente, Guerra levou cinco anos para construir a estátua, feita no quintal da sua casa. Foram gastos 20 toneladas de concreto e um trilho de bonde para segurar os braços do gigante de dez metros. Inaugurada em 1962, foi recebida com festa.“Alguns dizem que a estátua teve erros de proporção. Mas o Guerra era tecnicamente impecável, as características estéticas não são compreendidas mas são muito bem pensadas, baseadas no que existe de mais tradicional e característico da cultura brasileira”, explica Habib.
A estátua já fez nascer 19 comunidades do Orkut, entre as quais “Eu Odeio o Borba Gato” e “Eu tenho medo do Borba Gato”. O tamanho e a estética, além do histórico do homenageado, parecem ser os principais incômodos dos críticos. Acusado de assassinato, Manuel de Borba Gato foi pela coroa perdoado em troca de informações sobre a presença de ouro na região onde hoje é o estado de Minas Gerais, tornando-se político influente e bastante rico. “O que existe é um desconhecimento da própria História do Brasil. Naquela época, os bandeirantes estavam sendo homenageados, pois era um período em que o Brasil procurava construir os heróis da nação.”
Mas nem só de Borba Gato viveu Guerra. Nascido no começo do século, o artista estudou durante oito anos na Escola de Belas Artes de São Paulo se formando como professor de escultura . No começo da carreira, trabalhou como assistente de Victor Brecheret, um expoente da arte moderna brasileira, autor da famosa estátua do Monumento às Bandeiras, também conhecido como o “empurra-empurra” do Ibirapuera. Estudou na Europa e recebeu vários prêmios em reconhecimento à suas qualidades artísticas. “Ele é importante para a arte brasileira porque foi um artista dos mais bem-informados que tivemos. Se formou na escola de Belas Artes, viajou muito, tinha um profundo conhecimento de história da arte”, explica Habib.
Guerra deixou outras marcas em São Paulo. Na Av. Adolfo Pinheiro, construiu o painel do Teatro Paulo Eiró e, no Largo do Paissandu, é dele a estátua da Mãe Preta. Quem já passou pela Biblioteca Prestes Maia e prestou atenção, conheceu O Barbeiro Anedes, personagem que foi também protagonista de um livro que o artista escreveu durante 20 anos e que faz parte da exposição.
Um roteiro de visitação a algumas de suas obras públicas está previsto para acontecer todas as terças-feiras de novembro, com saída do próprio Sesc. Três vídeos sobre o artista, gincanas e oficinas também fazem parte da programação.
DIVIRTA-SE Júlio Guerra. Até 1º de dezembro.Sesc Santo Amaro. Av. Adolfo Pinheiro, 940. De 3ªf a 6ªf, das 10h às 19h, sábado, das 9h às 18h. Tel: 5525-1855. Grátis
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