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Quinta-feira, 1 novembro de 2007   edições anteriores
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  Moradores iluminam a própria rua

INICIATIVA Cansada de esperar pela Prefeitura, comunidade da Zona Sul faz 'vaquinha' e instala sistema de luz em rua de 500metros

Marici Capitelli, marici.capitelli@grupoestado.com.br

Quando uma das 18 lâmpadas da rua queima, ninguém telefona para o Departamento de Iluminação Pública (Ilume). Os moradores já sabem o que fazer: chamam Zé Carlos e preparam a imensa escada de madeira. Esse contador de 45 anos - ajudado pelos vizinhos - providencia a troca da peça.

Os moradores das cerca de 30 casas da Rua da Olaria, no M'Boi Mirim, Zona Sul, fizeram uma 'vaquinha' e foram os responsáveis pela implantação do sistema de iluminação pública. O material usado foi de primeira qualidade, eles contam. Os moradores dizem ter cansado de esperar pelo poder público. Também são responsáveis pela compra das luminárias novas.

A história é antiga. Começou há cerca de 15 anos, quando os postes foram instalados na rua. De lá para cá, foram idas e vindas de pedidos para que a luz fosse ligada, mas nenhum com sucesso.

Há cinco anos, a comunidade, preocupada com a segurança dos que chegavam tarde ou saíam de madrugada para o trabalho, resolveu o problema por conta própria.

'Arrecadamos cerca de R$ 80 de cada um e compramos o material para instalar, nós mesmos, o sistema', conta José Carlos Bellotto , trocador oficial das lâmpadas. Para o primeiro serviço, usaram um eletricista profissional que morava na rua. Depois que ele se mudou, Zé Carlos assumiu o trabalho. E teve de aprender na raça.

Toda vez que ele sobe na escada e fica a uma altura de seis metros para trocar as lâmpadas, a mulher, Cristina, 43 anos, e a mãe, Maria Neuza, 66, ficam apavoradas. Elas dizem que os cerca de 40 minutos que ele costuma demorar para concluir o trabalho parecem uma eternidade. 'Não gosto que ele faça esse serviço por causa dos riscos de queda e de uma descarga elétrica', disse Cristina. Como ela mesma diz, prefere 'um covarde vivo a um herói morto'.

Mas a vizinha Nilza de Camargo, 53 anos, e os demais moradores são só elogios para Zé Carlos.

Até holofote

'Se não fosse ele, estaríamos perdidos nessa escuridão', diz Nilza. Ela conta que chegou a instalar um holofote na porta de casa, mas a conta de luz ficou muito cara e desistiu da empreitada.

Com aproximadamente 500 metros, a tranqüila Rua da Olaria fica bem escura quando algumas das lâmpadas queimam. Muitas vezes, mais de uma peça estraga ao mesmo tempo.

Quando se mudou para o bairro, a caseira Alba Maria da Silva, 28 anos, não sabia do problema. 'Estava cursando o supletivo, mas freqüentei as aulas só um mês porque morria de medo de voltar nessa escuridão. Ficava na aula, mas com a cabeça na rua escura', lembra.

'Não é nosso papel cuidar da iluminação, mas ficamos preocupados com as pessoas que chegam tarde', diz Vitorino Bellotti, 65 anos. Assim como os demais moradores, Bellotti dá uma assessoria na hora da troca das lâmpadas, segurando a escada ou outra atividade que for necessária. Mas ele admite que fica preocupado com a segurança do eletricista improvisado, que é seu sobrinho.

Zé Carlos, pai de um casal de filhos, encara com naturalidade o trabalho de trocador de lâmpadas oficial. Ele conta que foi com o pai, um dos antigos moradores da rua, que aprendeu o conceito de cidadania. 'Ele cuidava da rua, dos bueiros. Tinha toda essa preocupação. Foi o legado que me deixou.' Vicente Bellotto morreu em fevereiro.

Os moradores da rua fazem questão de dizer que tanta demora para ligar a luz não se justifica, já que a rua é regularizada e todos pagam os impostos em dia, inclusive a taxa de iluminação de R$ 3,50.

A comunidade diz que já perdeu a conta dos pedidos para a Ilume. A última promessa é que teriam luz em agosto, o que não aconteceu.

A assessoria de imprensa da Ilume garantiu que a rua será atendida até o final deste mês.

LUZ EM NÚMEROS

560 mil

é a quantidade de pontos de iluminação na Cidade

22 mil
novos pontos é a meta da Ilume para este ano

1.877
é o número de queixas da Ouvidoria sobre iluminação

1º lugar
é a posição da Ilume nas reclamações da Ouvidoria



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