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A primeira sessão de cinema. Aos 91 anos
Aprígio Moreira da Silva viu A Grande Família. Passeio foi promovido por UBS de Guarulhos, ontem
Gilberto Amendola, gilberto.amendola@grupoestado.com.br
Esta história começa com um close no rosto de um rapaz de 14 anos. Ele está suando e sua expressão é séria, compenetrada, quase sem emoção. A câmera vai abrindo aos poucos. O garoto trabalha com uma enxada nas mãos. Na verdade, ele está fazendo uma cova, mais uma. Pelo número de cruzes ao seu redor, essa é a décima primeira pessoa que ele enterra. 'Meus irmãos morreram de fome em Pilão Arcado, no interior da Bahia. Fui eu mesmo que enterrei todos os onze', lembrou Aprígio Moreira da Silva.
Esse seria o início de um filme sobre a vida de Aprígio. Depois viriam cenas de sua chegada a São Paulo; a morte da primeira esposa durante o parto; sua carreira como soldador; sua segunda mulher; os sete filhos (o atropelamento que matou um deles); os 13 netos e suas animadas rodas de truco, dominó e damas.
Mas apesar de tantos dramas, ainda faltava um final redentor e poético - desses que fazem a platéia abrir um sorriso esperançoso no encerramento da sessão. Faltava...
Aprígio conseguiu viver, justamente, a cena que ele gostaria de ver no finzinho do filme da sua vida: um senhor de 91 anos pisando pela primeira vez em um cinema. 'Nunca tive tempo. Fiz tanta coisa, mas não consegui me divertir. Nem sei como é um cinema.'
Ontem, Aprígio acordou às 6h, tomou seu cafezinho, mordeu uma pêra e perdeu uns bons minutos decidindo que camisa iria usar. Como o relógio não corria, ele ainda teve tempo de arrumar o tabuleiro de damas e jogar umas três partidinhas com a filha. Ganhou fácil e rápido. 'Ainda vai demorar muito?', perguntou.
Por volta das 9h30, chegaram as agentes da Unidade Básica de Saúde (UBS) Nova Cidade, de Guarulhos, Grande São Paulo. O passeio foi promovido por essa UBS em comemoração à Semana do Idoso, e contou com a participação de 50 idosos.'Vai ter pipoca e coca-cola também?', indagou. 'Claro que vai, Aprígio', respondeu uma enfermeira.
Logo na frente do cinema, dentro de um shopping de Guarulhos, Aprígio brincou com a bengala e ganhou seu primeiro saco de pipoca. Os filhos e amigos que acompanhavam sua estréia no escurinho do cinema diziam: 'Parece uma criança.' Parecia mesmo.
O homem que aos 14 anos tinha enterrado 11 irmãos demorou um pouco para se encostar na poltrona e relaxar. Mas aos poucos foi entendendo a 'mecânica do lugar', aquela televisão gigante na sua frente e a manteiga na pipoca. Muita gente já sairia do cinema satisfeito com esse final. Mas ainda tinha mais.
Atrasada, Maria Inês de Souza, 72 anos, viúva e evangélica, sentou-se ao lado de Aprígio. 'Tomara que não tenha beijo, meu Deus.' Aprígio riu do comentário e se ajeitou na poltrona. Os dois assistiram A Grande Família (o filme da série de TV), juntinhos e felizes. Fim.
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