estadao.com.br Estadao Jornal da Tarde Agencia Estado Eldorado AM Eldorado FM iLocal ZAP
   
Tabelas do esporte
BLOG
Advogado de Defesa
 
 
  
      Busca local   
Segunda-feira, 14 maio de 2007   edições anteriores
VARIEDADES
 ÍNDICE GERAL | ÍNDICE DA EDITORIA | ANTERIOR | PRÓXIMA
  “Sou um cara normal. Meu trabalho é como o de um ator”

Wando



Romântico, obsceno, sedutor... Fora do palco, um dos cantores mais populares do Brasil não tem muito a ver com o personagem que representa. Aqui, ele reclama das rádios e se irrita quando é chamado de brega

Ele não é nenhum sedutor compulsivo que pensa em calcinhas a todo momento. Ao contrário da imagem que costuma passar em seus shows, Wanderley Alves dos Reis, o Wando, é também um cara sério, que discute a indústria fonográfica e fica incomodado quando o chamam de brega. Wando acaba de estrear uma temporada às quartas-feiras no Bar Brahma (Av. São João, 677, 3333-0855), e concedeu entrevista ao JT no hotel em que está hospedado, no Centro Velho da Cidade.

Você traz o seu estoque de calcinhas para o show?

Sim, isso é um brincadeira que começou há alguns anos. Já tentei parar, mas a cobrança da parte feminina veio com muita força. A gente montou uma grife de calcinhas especialmente para ser distribuída nos shows.

Como começou?

Eu lancei um disco com o nome Tenda dos Prazeres (1990) e precisava de alguma coisa que chamasse a atenção. Observando bem, percebi que quando você vira uma calcinha ao contrário, ela vira uma tenda, que esconde o prazer a que o homem mais se dedica. Então resolvemos distribuir algumas peças no show e virou moda. No começo, a crítica masculina foi muito desfavorável. Sabe, ciúmes. Mas aquilo tudo é um grande brincadeira, uma provocação. Eu sabia que as mulheres partiriam para cima e sabia que o marido poderia rasgar essa calcinha. Esse é o sonho de toda mulher: saber que o cara que está ao lado dela sente ciúmes dela. Nos últimos tempos, os homens começaram a entender essa coisa. Tanto que hoje é muito comum um homem chegar ao show e me pedir uma calcinha.

Você começou tocando samba na década de 1970 e depois foi para a linha mais romântica. O que te mostrou que o caminho era esse?

Eu sou um compositor que tem uma forma de trabalhar muito elástica. Componho desde o samba até, se precisar, o rock. Como eu comecei a carreira gravando com o Jair Rodrigues a canção O importante é ser fevereiro, um samba que fez muito sucesso em 1973, eu imaginei que eu deveria fazer um disco nesse sentido. Então eu fiz o Glória a Deus no Céu e Samba na Terra (1973), que não era um disco só com sambas, tinha também algumas coisas com influências de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil. Esse LP vendeu 50 mil exemplares. Foi bom para a época. Mas eu comecei a trabalhar na noite de São Paulo e percebia que toda vez que eu cantava música romântica, as mulheres ficavam maravilhadas. Aí eu pensei: vou gravar músicas românticas. Montei então o disco que tem as canções Moça, A paz nasceu para mim e também Nega de Obaluaê, que é um samba.

Vendeu muito. Eu tenho quase certeza de que a música Moça, no Brasil, deve ter vendido mais de 5 milhões de discos.

Houve alguma resistência a esse romantismo?

Veja que o primeiro sucesso desse disco foi Nega de Obaluaê porque a divulgação ainda estava colada no disco anterior. A minha grande salvação foi um locutor da Rádio Bandeirantes chamado Hélio Ribeiro, que tinha um programa com muita audiência. Um dia eu pedi para ele ouvir com atenção a canção Moça. Ele então passou a tocar e a música começou a acontecer. A TV Globo colocou na trilha da novela Pecado Capital e ficou maior ainda. O disco vendeu 1,2 milhão de exemplares de 1974 para 1975.

Por que suas composições fazem tanto sucesso?

De tempos em tempos, o amor e as coisas se modificam e eu tento perceber isso para escrever. Há pouco tempo eu fiz uma canção chamada Conectado em Você, que fala dessa procura na internet da pessoa ideal. Eu falo da realidade.

Você nunca se incomodou com essa imagem de sedutor, do cara que conquista todas as mulheres? Como é o Wando de verdade?

Eu sou uma pessoa normal, sou casado, tenho uma filha de dois meses e meio. Na verdade, eu sou como um ator. Até porque eu estaria morto hoje se fosse mesmo assim. Isso é um personagem, naturalmente. É normal que as pessoas pensem que eu sou desse jeito, mas não deixo que as pessoas alimentem muito essa imagem.

Você nunca se sentiu limitado, obrigado a fazer canções românticas?

Eu faço tudo. Gosto de cantar rock, samba, jazz. Eu me arrisco, eu protesto. Fiz uma música há pouco tempo que se chama Guerrilha. Fala sobre uma coisa que está acontecendo no Brasil, de alguns Estados que estão sofrendo com uma guerrilha urbana. O que esses meninos de rap estão dizendo por aí, eu falo também.

O que te incomoda hoje no Brasil?

Eu acho que os veículos de comunicação estão cometendo erros. Eu escuto um segmento que toca música brasileira, mas que acha que quem faz música brasileira é só Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque. Eles julgam o artista por um “selo” que alguém deu, e não pelo caráter da música que ele faz. A gente está vivendo um tempo ruim de música no Brasil, não porque coisas boas não estejam sendo feitas, mas porque as rádios estão cometendo um pecado: a maioria das canções que eles tocam é de uma forma obrigatória.

Você fala de jabá (pagamento para executar canções de determinado artista em rádio ou TV) ?

Tem muita gente comprando espaço. Com a diminuição do poder das gravadoras, algumas emissoras ficaram perdidas. Mas o público não é tão burro quanto eles pensam.

Isso já fez com que você não pudesse mostrar seu trabalho?

Olha, não é que exista algo contra o meu trabalho, mas eu não quero participar disso. Hoje, uma emissora que tem um grande anunciante tem que agradecer, se não vai ter que pegar anúncio da padaria, e isso não cobre as despesas. O que os departamentos comerciais pensaram: o que a gente mais toca? Música. Aí acontece esse tipo de problema. Esse sistema é cruel.

Por muito tempo você levou o rótulo de brega. Isso o incomoda?

Incomodou e incomoda. Quando as pessoas falam de brega, sempre se referem a uma coisa ruim. Então eu brigo por isso. Agora eles até quiseram colocar o brega como uma coisa bacana, mas eu acho que é uma forma de pedir desculpa, e isso é mau. Se for ver, você tem que chamar o Chico Buarque de brega, a Maria Bethânia, o Caetano Veloso, o Gilberto Gil. Eles gravaram as músicas que a gente grava. Eles gravam melhor ? Não. Isso foi uma coisa cruel que eles fizeram.

Você se sentiu prejudicado em algum momento?

Às vezes sim, porque depois que isso começou , a Radio Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro, que me tocava, parou de tocar minhas músicas, por exemplo.

Em 1978, você escreveu a canção ‘Emoções’, que é considerada a primeira que fala de uma relação homossexual masculina de maneira natural, sem preconceitos. Como é a história dessa música.

Eu li em algum lugar uma história que você podia jurar que falava de um casal, homem e mulher, que se amava. No final, você descobria que eram dois homens. Aí eu escrevi essa canção. Eu decidi fazer isso porque acho que que o relacionamento masculino é uma coisa válida. Não por ter aderido, mas porque eu tenho amigos que vivem esse tipo de coisa.

O Brasil acaba de receber uma visita do papa Bento XVI. A Igreja faz várias restrições comportamentais. O que você acha delas?

Particularmente eu acho um erro proibir o uso da camisinha. Acho que a religião católica precisa rever isso. Na verdade, a maioria dos católicos está enganando a Igreja, não está confessando esse pecado. Quanto ao aborto, eu acho que o aborto necessário tem que ser feito. Cada um sabe onde dói.

Você se considera católico?

Sim. Eu tenho a minha fé nos meus santos. Eu sou um católico divorciado e nunca casei na Igreja.

Você é sempre sério?

Eu tenho um lado sério e um lado sacana. No show o lado sacana se incorpora.



    Links Patrocinados
  Estadao.com.br | O Estado de S.Paulo | Jornal da Tarde | Agência Estado | Radio Eldorado | Listas OESP
  Copyright © Grupo Estado. Todos os direitos reservados.