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Domingo, 13 maio de 2007   edições anteriores
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  Contra as drogas

Para platéia de 2,5 mil dependentes,papa disse que os traficantes ‘terão de dar satisfações a Deus’

Adriana Carranca, Jamil Chade e Ricardo Westin

No momento mais informal e caloroso de sua viagem ao Brasil , o papa Bento XVI encontrou-se com 2.500 dependentes de drogas, deixou-se tocar, abraçar e beijar e criticou duramente os traficantes. O evento foi o único da agenda no Brasil em que ele tomou contato com obra social. Em seu discurso ontem de manhã, na sede da Fazenda da Esperança, em Guaratinguetá, entidade católica de recuperação de dependentes espalhada em nove países, disse que os traficantes terão de dar satisfações a Deus pelo sofrimento causado.

“O Brasil tem uma estatística, das mais relevantes, no que diz respeito à dependência química de drogas e entorpecentes. E a América Latina não fica atrás. Por isso digo aos que comercializam drogas que pensem no mal que estão provocando a uma multidão de jovens e adultos de todos os segmentos da sociedade: ‘Deus vai lhes exigir satisfações’”, disse o papa. “A dignidade humana não pode ser espezinhada dessa maneira.”

E completou: “O mal provocado recebe a mesma reprovação dada por Jesus aos que escandalizavam os ‘pequeninos’, os preferidos de Deus.” O papa referia-se ao Evangelho de São Mateus (18,6), em que Jesus diz ser preferível prender uma pedra e lançar ao mar os que fizerem mal às crianças. As 7 mil pessoas presentes ao evento interromperam o discurso para o aplauso mais vigoroso do dia.

Bento XVI chegou à fazenda com cinco minutos de atraso, às 10h35, e foi recebido pelo público com palmas e gritos chamando seu nome. Foi recepcionado pelo fundador do projeto, frei Hanz Stapel, bispos e governadores, entre eles o de São Paulo, José Serra, e outros políticos.

Primeiro, falou a 140 irmãs da Ordem das Clarissas, que vivem reclusas, mas obtiveram autorização especial do Vaticano para ver o pontífice. O encontro ocorreu na igreja construída especialmente para a visita - uma capela consagrada a Frei Galvão, o primeiro santo nascido no Brasil e canonizado anteontem pelo papa numa missa em São Paulo. Bento leu seu discurso em exatos dez minutos. Foi aplaudido 13 vezes, a mais forte delas quando mencionou os traficantes. “O papa nos dá uma ajuda espiritual muito grande, que nos impede de cair no mesmo mal”, afirmou José Carranza, de 17 anos, internado na Guatemala.

Na platéia, as primeiras fileiras eram reservadas a internos e ex-internos. Voluntários e autoridades acomodavam-se atrás. À exceção das autoridades, que ficaram em cadeiras, os demais sentaram-se em caixas de papelão. Frei Hanz abriu o evento, falando com um sotaque alemão mais forte que o de Bento. “Impressionou-nos muito a sua decisão de visitar os excluídos da sociedade”, disse o frade, que fez um forte lobby no Vaticano para articular a visita à fazenda.

Grupos de internos e ex-internos apresentaram espetáculos de dança. Em seguida, cinco dependentes que se trataram na fazenda deram depoimentos. Quase todos choraram. O papa manteve-se circunspecto, observando-os.

O brasileiro Ricardo Correia, de 31 anos, foi um dos que falaram ao microfone. Disse que renasceu “após seis anos no terrível mundo das drogas”. Após ouvi-los, o papa fez uma doação em cheque de U$ 100 mil, que devem ser usados para pagar parte das dívidas feitas para as obras da visita. Foram gastos R$ 5 milhões, dos quais R$ 3 milhões já quitados com doações. A entidade existe há 25 anos e por ela passaram 10 mil pessoas.

Delírio da multidão

Num dos raros momentos de quebra de protocolo em sua viagem ao Brasil, o papa andou no meio do público a pedido de frei Hanz. No final da cerimônia, que durou duas horas, o frade anunciou que o papa desceria do palco.

A multidão foi ao delírio. Máquinas fotográficas foram sacadas e uma aglomeração formou-se diante do palco. O caminho teve de ser aberto por seguranças.

Sorridente, o papa caminhou cerca de 50 metros sob o sol quente. Acenou e deixou-se tocar pelas pessoas. Algumas beijavam sua mão. O entusiasmo do público era tamanho que o papa levou dez minutos para percorrer os cem metros de ida e volta.

“A minha idéia era que o maior número possível de pessoas tocasse o papa. Os jovens, você sabe como são, esquecem logo o discurso. Têm de tocar”, explicou depois frei Hanz. Assim que o papa desceu do carro blindado que o levou à fazenda, o frade propôs a idéia. “Perguntei se a segurança permitiria. Ele respondeu: ‘Eles nunca permitem, mas eu vou’.” O caminho até a fazenda foi asfaltado em tempo recorde, entre fevereiro e o início do mês. O governo paulista gastou quase R$ 1,5 milhão na obra.

Recado surpreendente

A fala de Bento sobre traficantes surpreendeu vaticanistas que há anos acompanham as atividades da Santa Sé. Mas a crítica não foi por acaso. O combate às drogas vem ganhando força como um dos pilares das ações sociais da Santa Sé na América Latina. Em reunião recente entre o Vaticano e os núncios apostólicos nas capitais latino-americanas, em Roma, o narcotráfico foi considerado um dos maiores problemas.

Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano, afirmou há dias que a questão é “crítica”. A aceitação do convite de frei Hanz enquadrou-se nessa estratégia de transmitir o recado, a toda a América Latina, de que o problema deve ser tratado com prioridade pelos governantes.

O Vaticano montou um esquema para que a mensagem fosse divulgada pelo maior número de meios de comunicação possível.



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