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Segunda-feira, 30 abril de 2007   edições anteriores
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  Papai, quero ser músico!

Mais do que mero passatempo, a música tem sido opção profissional para muitos jovens

RAQUEL FORTUNA, raquel.fortuna@grupoestado.com.br

“Perguntei ao meu filho o que ele queria ser na vida. Ele me disse que queria ser o melhor guitarrista do Brasil. O que eu, com toda a minha experiência, responderia? Se é o que você quer realmente, vá em frente. Mas faça com dedicação.”

O depoimento de Marco Silva, o Marcão, talvez seja a reação esperada para alguém como ele, produtor da Banda Liga Z e com mais de 28 anos de experiência na área, diante do desejo de seu garoto. Mas o que dizer dos pais e mães que topam com um talento dentro de casa e nunca chegaram perto de um palco ou de um estúdio?

Para o professor de psicologia especializado em orientação vocacional da Unicamp, Valério José Arantes, o diálogo em casa é fundamental na escolha da carreira dos filhos. “É muito importante que os pais apóiem aquilo que eles estejam motivados a fazer. E é preciso ter a consciência de que se os filhos fazem o que gostam, terão mais chances de se darem bem profissionalmente”, explica.

Foi exatamente o que fez Marcão, que hoje se divide entre a tarefa de pai e produtor do banda do filho Caio, de 17 anos. Ele é o guitarrista da Liga Z, ao lado de Richard Zach (vocal e baixo), Renan Du Remo (guitarra), e Vinicius Nicolai (bateria). Em comum entre os quatro rapazes, o talento e a vontade fazer da música o próprio sustento, como gente grande. “Tenho que prepará-los para encarar qualquer tipo de problema, seja pessoal ou profissional, sem transformá-los em bibelôs. Faço o papel de 'Felipão' (técnico de futebol) na hora da cobrança e para mantê-los com o pé no chão, mas preciso ser o pai que sabe conversar quando alguém termina com a namorada”, ensina Marcão.

Para chegar até o estúdio onde ensaiam, é necessário driblar sala, cozinha, quintal e escada. “Não liga para a bagunça, tá?”, pede o Richard, entre o pôster dos Beatles e o prêmio de primeiro lugar no festival universitário de bandas na parede. “Este estúdio tem mais de 20 anos. Era do meu tio”, orgulha-se Caio.

Quando fala que é vocalista e baixista, Richard Zach costuma ouvir de volta perguntas como “Músico? Tá, mas o que você faz?”. “As pessoas acham que na idade que a gente tem, ter uma banda é sinônimo de diversão. Na verdade, a gente não encara desse jeito. Queremos isso para a vida”, diz.

Ao lado do parceiro de composições Caio (os dois também escrevem músicas), frisa a importância de contar com o apoio da família na escolha da profissão. “É o que nos ajuda a acreditar e amadurecer nosso som”, diz. Enquanto os amigos jogavam bola, Vinicius Nicolai tocava bateria. O talento do garoto, hoje com 17 anos, foi descoberto pelos pais ainda cedo, aos nove. A partir de então, decidiram encaminhá-lo a uma escola de música.

“Quando assisti à primeira apresentação formal dele, tive a certeza de que levava jeito para a coisa”, diz o pai Wagner Nicolai. Quando perceberam que o filho queria levar a música a sério, os pais o chamaram para uma conversa. “Foi uma condição. Se ele quisesse viver de música, teria de continuar estudando”, conta a mãe Mirtes Garcia Nicolai.

Renan Du Remo, que quase enveredou pelo esporte profissional, acabou optando pela música, mesmo contra a vontade do pai. “Tenho apoio em casa, mas meu pai até hoje acha que não dá futuro. Ele gostaria que eu fizesse uma faculdade ligada a outra coisa”, revela. Apesar de defender a orientação da família, Arantes, o psicólogo da Unicamp, alerta para as influências.

“É preciso que os pais tenham maturidade para estabelecer um diálogo sem forçar para os interesses pessoais. Quem escolhe por pressão, tem mais chances de ficar migrando de um curso para o outro e não se satisfazer”, completa.

O temor dos pais é ver o filho enfrentar um mercado de trabalho restrito. E fracassar. Mas, segundo os especialistas, se a queda na venda legal da música no Brasil fez diminuir os investimentos das gravadoras em novos artistas, por outro lado o avanço da tecnologia e das ferramentas da internet abriram mais espaço para os iniciantes se lançarem. “Vivemos um dos momentos mais legais, em que qualquer artista pode se fazer por si só. Mas a primeira coisa que ele precisa é ser artista de verdade”, afirma o produtor musical e jornalista Carlos Eduardo Miranda, o Miranda do programa Ídolos, do SBT.

Ser artista de verdade significa, além fazer um som de qualidade, ter postura e estrutura profissionais. “É necessário ter uma equipe pra administrar, cuidar da carreira, ter empresário. É muito raro um artista solitário se dar bem', diz.

Como em toda carreira, os obstáculos também existem na música. O sucesso e a fama, por exemplo, estão entre as principais armadilhas. “A gente queria que nosso som desse certo, tínhamos vontade e aptidão para o sucesso, mas éramos novos e isso poderia subir à cabeça de alguns. Acho que qualquer banda que cresce passa por estes choques. Com a gente, não foi diferente”, conta Japinha, baterista da banda CPM 22, que driblou momentos difíceis ao lado dos colegas. Para Miranda, a ansiedade também pode atrapalhar o desempenho. “É a maior armadilha que está atrelada à busca da fama, do sucesso e do dinheiro”, completa.

E, para quem está dando os primeiros passos, o produtor Rick Bonadio, dá a dica: “É impossível comprar sucesso e muito menos o respeito de um público fiel. A música tem de ser boa. Seja original, ame o que faz e não espere um caminho fácil. Olhe para o seu trabalho de maneira realista e crítica e trabalhe sempre para melhorar.” Tá falado!

NA ACADEMIA

Dica: há quem diga que o talento e a dedicação na música valem mais do que anos na universidade. Mas, para os que desejam buscar o conhecimento, existem faculdades que oferecem cursos de graduação na área. Confira algumas delas:

São Paulo - USP, Unicamp, Unesp, Unicsul,Ufscar, Fasm

Bahia - Ufba e Ucsal

Distrito Federal - Unb

Minas Gerais - Ufmg

Rio de Janeiro - Ufrj e Unirio

Rio Grande do Sul - Uergs



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