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Sábado, 21 abril de 2007   edições anteriores
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  Um circo na TV

Quem diria: o programa de Nerivan Silva é um sucesso

Júlio Maria, julio.maria@grupoestado.com.br

O império de Nerivan Silva é um salão apertado com um cenário de cores fortes, quatro bailarinas e 17 pessoas no auditório. Elas entraram porque a porta que dá para a Rua Rui Barbosa, na Bela Vista, estava aberta e ninguém fica lá para cobrar ingresso. O programa-circo de Nerivan está para começar e a platéia, quando aparece, precisa estar animada.

Nerivan Silva é uma peça rara. Seus programas trazem atrações do quinto ao primeiro escalão do forró e é exibido em dois canais de expressão suficiente para torná-lo astro de seu universo. Às 16h de sábado, Nerivan Silva está na Gazeta. Às 12h de domingo, sua casa é a Rede TV! E de segunda a sábado, às 5h da manhã, volta à Gazeta para apresentar os Melhores Clipes de Forró. Os horários foram comprados por sua produtora, que aposta no que chama de talentos únicos do comunicador.

O êxito de Nerivan Silva está também em outros números. Há sábados em que seu programa dá picos que o fazem bater o Programa Raul Gil, na Bandeirantes. Seu recorde é de quatro pontos, algo de surpreender uma produção que conta com, somando o próprio apresentador, quinze pessoas. O custo mensal da empreitada fica em R$ 70 mil. Não há verba para bancar nem as atrações maiores. Uma Banda Calypso, por exemplo, só é convidada se já estiver hospedada em São Paulo para algum show.

Nerivan é também termômetro de um segmento intrigante: o forró brega, e não o forró universitário, movimenta em São Paulo uma colônia com oito milhões de nordestinos que já elegeram galpões grandiosos como o Centro de Tradições Nordestinas e o Patativa seus ‘estádios’ oficiais. Nerivan entra aí no papel de único apresentador nordestino de um programa exclusivamente de forró nas grandes emissoras.

Seu programa é ainda o reino de Washington Brasileiro, Biguá, Fernando Santeiro, Arriba Saia, Gaviões do Forró, Busão do Forró. E não se deve menosprezá-los antes de conhecê-los. As canções de Washington Brasileiro eram acompanhadas pela platéia de 17 pessoas com o fervor dos fãs que cantavam no Morumbi com o Aerosmith. A desenvoltura no palco de Biguá, um homem mais maduro e sem o mesmo físico de Felipe Dylon, lhe rende gritos de ‘lindo, tesão, bonito e gostosão’.

Nerivan tem no sangue a perseverança dos nordestinos que tiram coelhos da cartola quando o mundo está prestes a ruir. Seu mundo ruiu no primeiro dia em que pisou em São Paulo, em 1986. Quando passava por Minas Gerais, o ônibus clandestino que o trazia de Bezerro, em Pernambuco, para São Paulo pegou fogo. Ninguém morreu, mas as bagagens viraram cinzas. “Fiquei só com a carteira.” Uma prima o recebeu em São Paulo e deu a ele moradia. “Cheguei sem mala, sem roupa e sem emprego.”

Nerivan começou a nascer de novo em uma padaria, onde foi trabalhar de copeiro. De lá, foi ser frentista em um posto de gasolina, mas sentia que havia um incômodo. Aonde quer que estivesse, ouvia sempre um forrozinho tocando lá dentro da sua cabeça. Nerivan logo virou homem de rádio, apresentando um programa de forró. E, em 1992, já estava em emissoras underground como Canal 45, da região do ABCD, Band Litoral, TV Mar, uma retransmissora da Record, e Canal 21.

Na televisão, Nerivan se auto-intitula ‘levanta defunto’. “Sou aquele que pega o programa com um traço no Ibope e leva lá pra cima”, diz. A exposição o faz conhecer uma fama que também cobra seu preço. “Quando vou na minha cidade, lá em Pernambuco, o pessoal da família vem pedindo dinheiro emprestado pensando que tenho pra dar e vender.” Não é bem assim, segundo o próprio comunicador. Suas conquistas na TV ainda não o fizeram um milionário. Talvez nem rico ele seja. “O meu grande trunfo é a fórmula simples que temos de ter para tirar leite de pedra.”

Ele fala isso de forma sincera. A grua, uma das três câmaras usadas para gravar seu programa, é controlada por cordões de metal e equilibrada com pesos de halterofilista. Seus ajudantes de palco são um casal de anões, no estilo Ratinho, e um palhaço que funciona também como animador de auditório. As roupas de Nerivan são fornecidas pelo dono de uma marca que nem faz questão de ser mencionado.

A fama de Nerivan começa a render facilidades. Ele conta que Sérgio Reis, o renomado sertanejo, ligou pedindo para ir ao programa. Na última segunda, quem estava nas gravações era o cantor Gilliard, aquele romântico dos anos 80 por quem as mulheres suspiravam. Essa é outra faceta de Nerivan Silva. Seu programa tem a função de dar abrigo a vozes que um dia puderam escolher entre ir ao Programa do Faustão ou ao Gugu Liberato. Mas não é só. Nerivan tem ótimos contatos na série A dos forrozeiros nordestinos. Frank Aguiar, mesmo depois de virar deputado, já foi a seu programa. Amado Batista, um arrasa quarteirões de primeira ordem, também conhece seus estúdios. Só resta um nome, e por esse Nerivan Silva faria tudo: “Meu sonho é trazer aqui o Roberto Carlos”.



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