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Segunda-feira, 26 fevereiro de 2007   edições anteriores
OPINIÃO
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  Um conto-do-vigário sangrento

Com o registro policial de 3,1 mil casos somente nos primeiros 45 dias deste ano e se levando em conta que poucas vítimas se queixam à polícia, o golpe do seqüestro falso passou a ser o mais novo e próspero produto da impune indústria do crime organizado no Brasil. E dá mais uma prova da absoluta inépcia do Estado brasileiro diante desse terrível inimigo. Embora possam comprar facilmente armamento pesado e moderno, de que os policiais não dispõem, os bandidos não precisam disso para agir. Suas armas são apenas duas: uma linha de telefonia móvel e o pânico endêmico que paralisa, assusta e leva às raias da loucura as vítimas, milhões de brasileiros trabalhadores, decentes e cumpridores de seus deveres. Dos presídios onde vivem, os bandidos telefonam para os brasileiros pacatos e simulam o seqüestro de algum familiar próximo deles. Começaram exigindo créditos para celulares pré-pagos. Hoje cobram resgates por seqüestros que não fazem e nos quais não precisam nem sequer conhecer os eventuais alvos, pois os próprios familiares destes, para os quais telefonam, ficam tão fora de si ao receber tais telefonemas que terminam por lhes fornecer as informações essenciais de que precisam para aplicar o golpe.

O sucesso dessa modalidade desconhecida em outros países do mundo, que mistura o velho (que hoje seria tido como inocente) conto-do-vigário com a brutalidade contemporânea, desconhecida até na barbárie (como foi o caso do menino arrastado pelos ladrões do carro de sua mãe na zona norte do Rio), deve-se a uma mistura fatídica de ambiente propício com autoridade incapaz de tomar uma atitude qualquer para deter a violência.

Se os quartéis-generais dos falsos seqüestradores são os presídios (em 71% dos casos no Rio de Janeiro), onde condenados dispõem de tempo e telefones, por que nunca se impediu o acesso dos presidiários a esses aparelhos pequenos e leves, mas facilmente detectados por equipamentos tecnologicamente simples? Há anos o Brasil se defronta com o desafio da comunicação entre os chefes de quadrilhas nas prisões e seus sequazes na rua. Com o celular agora usado como arma para falsos seqüestros, já é hora de acabar com essa pouca-vergonha, que põe em risco a vida dos governados pela falta de competência dos governantes.



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