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Segunda-feira, 6 novembro de 2006   edições anteriores
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  Os detalhes do esquema

Como é a hierarquia nas operações com laranjas

Marcia Silveira, marcia.silveira@grupoestado.com.br

Por trás dos moradores de albergues da Capital que são usados como “laranjas” em operações fraudulentas de câmbio, esquema revelado com exclusividade pelo JT na semana passada, há gente que lucra muito mais do que os R$ 10 pagos para que eles emprestem seus RGs, CPFs e assinaturas em processos ilegais de compra e remessa de dólares.

A reportagem apurou, nos dias em que acompanhou de perto o funcionamento do esquema na Capital, que, na hierarquia do golpe, o doleiro ocupa o topo da pirâmide. Ele “contrata” pessoas para gerenciarem o aliciamento dos moradores de albergues. Cada gerente recebe dos doleiros R$ 70 por cada “laranja” aliciado.

Abaixo dos gerentes, na escala do golpe, estão os aliciadores. Eles ganham R$ 35 por dia para arrumar os “laranjas” pela Cidade. São os gerentes que pagam os salários dos aliciadores e que desembolsam as remunerações dos laranjas.

Todos os dias, os doleiros calculam, de acordo com a quantidade de dinheiro a ser usada nas operações, quantos laranjas irão precisar em cada casa de câmbio e avisam os gerentes. De dentro das casas de câmbio, os gerentes ligam para os aliciadores e repassam as ordens dos doleiros.

Perto do Municipal
O esquema acontece há pelo menos dois anos na Cidade. Durante as manhãs, os aliciadores se reúnem perto do Teatro Municipal, no Centro, à espera dos comandos dos chefes, passados por celular.

Há gerentes que têm até dois aliciadores trabalhando para eles. Na terça-feira passada, a reportagem flagrou um dos aliciadores em ação. Vestindo camisa branca e camiseta escura por baixo, ‘Jorge’ segurava as senhas que seriam distribuídas naquele dia. São papéis com a imagem de Che Guevara. Por causa da publicação da foto, ele foi afastado da função.

As senhas são apresentadas pelos laranjas nas casas de câmbio e depois entregues carimbadas aos aliciadores (veja quadro). Os laranjas não vêem o dinheiro das operações fraudulentas, apenas assinam os boletos de câmbio das transações.

O JT apurou que existem dez casas de câmbio na Capital freqüentadas pelos laranjas. Quatro delas estão bairros nobres da Cidade. “Chega a ser engraçado ver aquela gente toda malvestida e cheirando a pinga saindo dessas casas”, comenta um dos aliciadores. Ele conta que, para não levantar suspeitas da Receita Federal, é feito um verdadeiro rodízio entre os moradores de rua.

‘Quarentena’
Se um laranja, por exemplo, assinar um boleto em uma casa de câmbio, ele só poderá realizar outra operação naquele local depois de um tempo determinado. Há lugares em que o prazo estabelecido é de uma vez a cada três meses, outros de duas vezes por mês e há casas em que o mesmo laranja pode assinar o boleto a cada 35 dias.

O JT apurou que, na quarta-feira passada, só em uma das casas de câmbio participantes, aliciadores enviaram 50 laranjas - 23 deles chegaram pela manhã.

A Polícia Federal informa estar apurando o caso. Mas se nega a informar até o nome do delegado responsável pelas investigações. Hoje, serão enviadas novas informações ao Ministério Público Federal.

Para não atrapalhar as investigações, essas informações não foram publicadas nesta edição.



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