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Quarta-feira, 26 julho de 2006   edições anteriores
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  'Fiquei ilhada por bombas'

Brasileira foi vítima de ataque aéreo durante fuga

Shaonny Takaiama

Uma ilha cercada por bombas. Foi essa a forma que a brasileira Valdelice Nunes Leguth descreveu Beirute, a capital do Líbano, ao desembarcar, ontem, no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. "O sufoco foi muito grande. As bombas explodiam na nossa frente, acabando com tudo. Nós estávamos em uma ilha que ao invés de água, era cercada por bombas. O Líbano acabou."

Valdelice estava entre os 69 brasileiros e os 8 libaneses com cidadania dos dois países resgatados em Adana, na Turquia, por um avião da Força Aérea Brasileira. Depois de 13 horas de vôo, era explícito o alívio em seu rosto. Ela morava no Líbano há sete anos e teve de deixar para trás a filha, os netos e o genro, que ficaram na Síria. Sua fuga não foi fácil. "Meu passaporte estava vencido e quase não me deixaram passar. Quando consegui, alguém disse que estavam caindo bombas e os carros foram uns por cima dos outros. Essas bombas não vão sair da minha cabeça nunca mais. Graças a Deus estou aqui hoje."

Na área de desembarque do aeroporto, a comoção dos familiares que esperavam o vôo da FAB era grande. Amujad Alamedine não se conteve ao rever as sobrinhas Hala, de 18 anos, e Guinwa Ahmad, de 14 anos. "Esse Brasil é a mãe do mundo!", exclamava ele, emocionado. Há sete meses, as duas sobrinhas tinham ido a passeio para Trípoli, mas a mãe voltou antes, sem saber da iminência do conflito.

O adolescente Tarik Rahal, de 15 anos, também viu de perto os horrores da guerra. De férias no Brasil, ele foi visitar os avós que moram no Vale do Bekaa, onde brasileiros estão sendo resgatados. "Saí de lá porque estava horrível, um clima de guerra mesmo. A TV de lá não tem censura, mostra tudo o que acontece. É muito chocante." A travessia de Tarik também não foi fácil. "Foi complicado passar pela fronteira da Síria, tive que subornar um dos guardas. Mas lá uma família de brasileiros me ajudou muito."

Com os olhos cheios de lágrimas e a maquiagem borrada, Carolina Rahal, a mãe de Tarik, segurava forte as mãos do embaixador Jadiel Ferreira de Oliveira para agradecê-lo. "Muito obrigada pelo meu filho estar aqui. O trabalho de vocês foi nota 10!", disse ela ao embaixador.

Retirada

O Itamaraty estima que 850 brasileiros no Líbano foram levados para Turquia e Síria. Outros 145 saíram por conta própria. Hoje, um avião deve partir de Adana, na Turquia, trazendo cerca de 150 brasileiros. Outro vôo, este da TAM, partirá de Damasco com 225 passageiros para São Paulo. Amanhã, outro vôo da FAB partirá da cidade de Adana, com 80 pessoas, para Recife e São Paulo. Na sexta-feira, uma operação conjunta entre TAM e Gol levará mais 225 pessoas ao País. Sábado um vôo trará ao Brasil mais 150 pessoas que deixaram o Líbano.

O governo brasileiro deverá incluir cidadãos argentinos, paraguaios, bolivianos e canadenses na próximas viagens de brasileiros que fogem da guerra no Líbano.



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