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Dignidade
Eunice A. de Jesus Prudente
A cara do que vemos na tevê não representa mais de 45% da população brasileira - número de negros estimados pelo IBGE. Ao que assistimos diariamente na telinha é um Brasil destoante das favelas e dos subúrbios, principalmente nas novelas. O folhetim das 8 horas, que terminou na semana passada, alcançou média de 59 pontos, ou seja: de cada 10 espectadores 7 estavam sintonizados na emissora. O autor Silvio de Abreu, craque no assunto, também se disse "chocado" com a tolerância do público diante dos desvios de conduta dos personagens, em entrevista recente. Mocinho não faz mais sucesso, o bandido ganhou status de mais querido. Alguma semelhança com a vida real?
O que vemos nas novelas é quase sempre a imagem inferiorizada ou estereotipada do negro; a "coisificação" da mulher, a invisibilidade do portador de deficiência (mais de 14% da população brasileira, segundo o Censo de 2000), o desrespeito aos idosos e a satirização do nordestino.
Sob alegação da chamada "licença poética", alguns autores ferem a dignidade da pessoa humana. Será que o negro pode ser subjugado, o judeu atacado, o nordestino humilhado e a mulher inferiorizada apenas para dar mais "emoção à trama"?
A regravação de Sinhá Moça, mais uma vez, retrata um negro passivo diante do cativeiro, que nasceu para servir e ser explorado. E, quando libertos pelo "irmão do Quilombo" - estranhamente um homem branco -, vão para um lugar que nunca aparece nas telas. O MP da Bahia está avaliando o conteúdo dos folhetins e pede retratação histórica. Longe de mim interferir na criação ou defender restrições, mas, quando o assunto é intolerância, devemos estar atentos até mesmo quando estamos relaxados.
SECRETÁRIA DA JUSTIÇA E DA DEFESA DA CIDADANIA
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