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A primeira biografia de Rita Lee é sua cara: sincera e debochada

JÚLIO MARIA, julio.maria@grupoestado.com.br

Rita Lee Jones, primeiro, não gostou nada da idéia. Sim, ela tinha história que não acabava mais, mas biografia era coisa de defunto, não de uma mulher acostumada mais a vírgulas do que ponto final. A vida de Rita Lee estava lá, trancada no apartamento em que vive em São Paulo até que um cara chamado Henrique Bartsch bateu à porta. Ou melhor, mandou e-mail.

Engenheiro civil e músico de Ribeirão Preto, 55 anos, observador atento da carreira dos Mutantes, Bart, como passou a ser chamado pela biografada, foi derrubando o muro que isolava Rita a golpes de 'enviar'. "Começamos a trocar e-mails praticamente todos os dias e Rita começou a me contar coisas de sua vida." O livro começava ali, com a união do exorcismo virtual de Rita Lee com a criatividade literária e bem humorada de Bart.

Rita Lee Mora ao Lado - Uma Biografia Alucinada da Rainha do Rock nada tem das bios convencionais. Bart não ouviu outras fontes além da própria cantora. Sua saída foi misturar as memórias que a roqueira lhe passou em cerca de 200 e-mails à observação de uma personagem fictícia chamada Bárbara Farniente. Espécie de vizinha de Rita, sempre presente em momentos cruciais, Bárbara é uma mulher irreal que narra passagens reais. "Por incrível que possa parecer, tem muito mais verdades do que imagina nossa vã filosofia", conta Bart. O fato é que o que acontece com Bárbara, muitas vezes, aconteceu mesmo com um peixe grande do showbiz que, por instinto de sobrevivência, não tem seu nome revelado. E nem Bart, nem Rita gostam da brincadeira de colecionar processos.

Assim, entre o real com jeito de delírio e o delírio com cara de real, a vida de Rita Lee vai sendo contada em dois testamentos, o Velho e o Novo. Os primórdios da mulher que se sairia bem como rainha do rock nacional começa no consultório de seu pai, Charlie, na cidade de Rio Claro, interior de São Paulo: "Dona Magdalena, temos muito trabalho a fazer e não será nada barato. Tenho uma proposta: a senhora não aceitaria, em troca do tratamento, dar aulas de piano para uma de minhas filhas?"

A negociação era com a grande pianista Magdalena Tagliaferro que, assim, na base do toma lá dá cá para ter seu tratamento dentário com o pai de Rita, passou a dar aulas de piano à menina.

A estréia como pianista seria traumática. Ao se sentar à frente das teclas para apresentar seu primeiro número, Rita molhou as calças de um pavor manifestado em xixi. A música erudita era passado. O que viria pela frente era um moreno alto, ex-motorista de caminhão e que gostava de cantar e tocar violão na base do rebolado. A música Hound Dog, de Elvis Presley, injetou nas veias de Rita o vírus do rock.

A inocência da menina seria perdida de vez com chegada dos irmãos Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, companheiros de Mutantes. No capítulo Os Três Patetas, aparecem travessuras bem pesadas cometidas pelo trio. Quase impossível hoje de imaginar a doce Rita assim, mas lá está ela e seus amigos com óleo de máquina de costura jogando em pessoas nas filas de ônibus e bondes; com bombas e rojões arremessando em farmácias, padarias e bancas de jornais; passeando em redutos de judeus em São Paulo com uniformes da Gestapo, a polícia de Hitler; e espirrando os três ao mesmo tempo em cima do repórter que os entrevistava.

O mesmo capítulo lembra da vingança contra Edu Lobo em um show que Mutantes e Edu fizeram em Portugal. Ao saberem que o bossa novista falara mal do som dos Mutantes, o trio foi à forra desligando o cabo de som antes da apresentação do rival. Edu Lobo, cara de tacho, não pôde fazer seu show.

Anos depois, sem os Mutantes e já ao lado do marido Roberto de Carvalho, o cenário é o palco do Rock in Rio 1. Sem disco novo e sem uma banda afiada para encarar a parada, Roberto relutou em aceitar. E estava certo. É assim que este episódio aparece nas memórias da cantora, transcritas por Bart: "Foram maltratados como todo artista nacional em festivais internacionais. Som malfeito, pouco tempo, tocar à luz do dia... A apresentação, com uma banda liderada por Lincoln Olivetti, foi um desastre total. A cara de Roberto era de velório..."

A saída de Bart para escrever a história de Rita confiando nas lembranças da artista tem dois lados. O bom é que, apesar da ausência de datas - "o interessante é a essência dos fatos", diz Bart - tudo ali teve a aprovação de Rita Lee. É a garantia de que não há histórias de mentes maldosas ou vingativas. O que poderia ser menos empolgante é o fato de que um biografado que conta sua própria história pode cair na tentação de se deixar 'esquecer' de alguma passagem picante. Rita, na entrevista abaixo, diz que sua observadora, Bárbara Forniente, foi fundo. Bart tira as nuvens da polêmica: "Mandei o texto final e Rita não quis cortar nada. E olha que ali tem coisas bem íntimas."



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