Duas pessoas morreram atropeladas em cada dia de 2005 em São Paulo. O trânsito vitimou 736 pedestres ao longo do ano, segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). Quem anda a pé continuou sendo a principal vítima: metade das quatro mortes diárias no trânsito foi de pedestres. E em apenas cinco corredores houve 70 mortes de pessoas a pé em 2005: as Avenidas do M'Boi Mirim (Zona Sul), Senador Teotônio Vilela (Zona Sul), Aricanduva (Zona Leste) e Marginais do Pinheiros e do Tietê.
O total de mortes de pedestres em 2005 foi quase igual ao de 2000, último ano do qual se tem estatísticas completas. Naquele ano, foram 738 atropelamentos. A CET trabalha, agora, para completar as estatísticas de 2004, que deixaram de ser feitas por falta de verbas.
Em cada via campeã de atropelamentos há uma ameaça diferente e um lugar mais perigoso. Nas Avenidas M'Boi Mirim e Teotônio Vilela, a maior armadilha para os pedestres são os corredores de ônibus Passa-Rápido.
Na M'Boi Mirim, que nem aparecia no ranking em 2004, houve 17 mortes em 2005. Há pontos perigosos por causa de faixas apagadas e iluminação deficiente na altura dos números 2.400, 3.000 e 3.250, entre outros. Muita gente atravessa fora das faixas, por causa da distância entre os cruzamentos.
Na Teotônio, onde o número subiu de 13 para 16 mortes entre 2004 e 2005, o perigo mora depois do número 5.000, onde as faixas e a sinalização de solo começam a apagar.
Somado à desatenção dos pedestres, o risco aumenta pelo fato de os corredores não terem semáforos em vários pontos. A CET está tentando reduzir a velocidade máxima dos ônibus para 50 km/h, para tentar conter as mortes. "Ao longo do ano, os corredores estarão com velocidade máxima mais baixa", promete Adauto Martinez , gerente de operações da companhia.
Nas marginais, sem calçadas, ninguém tenta atravessar a rua. As principais vítimas são moradores das favelas ou bairros vizinhos das pistas - embaixo das Pontes Júlio Mesquita, Atílio Fontana e Viaduto Milton Tavares (Penha), na Marginal do Tietê, e perto da Ponte do Socorro (Marginal do Pinheiros) -, que andam junto das guias laterais.
"Andar por aqui é um suicídio", diz o desempregado Reginaldo Silva, que mora em um barraco próximo da alça da Ponte Atílio Fontana. A senha para tentar andar junto ao meio-fio é acenar para os motoristas. Nem sempre funciona: ali houve uma morte em outubro. Na Marginal do Pinheiros, o aposentado José Medeiros Gomes contou já ter visto vários atropelamentos.
Já vendedores ambulantes e pedestres que reclamam do tempo escasso de fechamento dos semáforos são as principais vítimas de atropelamentos na Avenida Aricanduva, Zona Leste. É um típico caso de via que não foi projetada para ser atravessada de uma vez só, porque tem ilha central para descanso. "Só que a companhia não avisa o pedestre", aponta Eduardo Daros, presidente da Associação Brasileira de Pedestres (Abraspe).
A CET programa os semáforos levando em conta que as pessoas andam com velocidade de 1,2 metro por segundo, quase uma corridinha. "O pedestre não entende a sinalização, não sabe que é para esperar no meio", completa Daros.